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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Quinto Surrealista





Mesmo se tentasse, por todos os seus erros
Precisar a duração dessa noite
De nada adiantaria
Porque os caminhos dos ponteiros continuaram os mesmos
Foi só a alma quem parou
Desorganizada teoria

E se assim pelos poros vertessem perfumes
Nessa noite seriam os venenos o que destilariam
Os mais perigosos, coloridos e mortais
Inocentes olhadas no espelho
Por cima dos ombros tanto faz
Se a noite jaz ou se jaz o dia

Se tentasse entender, a loucura te tomaria
E ganharia as ruas como eu ganhei
Não para desafiar os joelhos
Cegos, surdos e pagãos
Mas para olhar a lua sem dores
E as coisas voltariam para onde estão

Seis, sete, oito da manhã
As bancas vendem manchetes
Crimes e novas vedetes
Capitalismo sem juízo,
Me junto ao bando que da lua nada sabe
Sabem apenas das horas

Iluministas e iluminados
Bêbados e equilibristas
Todo mundo voltando para casa
De onde eu não deveria ter saído
E onde os ponteiros me oprimiam
Mesmo com a lua tão bela na sacada da sala

Marcelo Moro

Quarto Surrealista




Das mãos esquálidas que tocam a pedra nua entalhada
Brotam chamas azuis que em laranja se tornam
Focam-se pares de olhos sobre a batalha de cavalos
Se distraem, e a mente se esquece das perigosas diagonais
Esperança tornada em jamais, em torrentes de perdas
Muros que se interpõem caem
Lábios que se propõem, beijam
Ah! Como gostaria que não houvesse medo
Nem tampouco pudor nesse segredo
Viagem das mãos, jovens capitães.

Marcelo Moro

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Terceiro Surrealista




Um movimento
Uma espera
A frase não se completa
Se transforma em solidão
A palavra no ar
Como ao ar se lançam mãos

Travessas e becos mal iluminados
O mar de Camões
Pra quem não conhece o mar
Se jogar uma luz, fica óbvio
Se deixar sombrio, viram sermões
Dúvidas, dívidas da razão

Senhores escravos
Que a certeza corrompe, calai!
Deixai que falem as lacunas
Amigas eternas de quem sabe o mar
De quem ouve as dunas
De quem se orienta pelas estrelas

Marcelo Moro

Segundo Surrealista




Desse covil de ardentes pensamentos
Vivendo intensamente de revista e café
Um blues qualquer, quem sabe um jazz
Me inspira a escrever à mão
À luz de velas como no passado
Em outros devaneios que se vão
Que se foram

E você musa distinta?
Que não vem, que se atrasa na escuridão
Que eu inventei desse dia de sol
Que se aparecesse eu correria
Pra me esconder em um castelo de cartas marcadas
A vigiar pelas ameias da canastra
De espadas, de ouro, qualquer
Vigiar
As brilhantes madeixas de uma cor impublicável
Pois não seria pudico nem prudente
Ao poeta descrever sua musa
Coloca-la a nu
Como a coloca em fantasias, teso e duro

Se ao revelar-me sondando teus passos
E me indagares
Responderei –te em ato
porque as palavras falham
e se vingam do seu autor
prosperando, de boca em boca
distorcendo, mudando

queria te falar mais
da poeira do chão ao pó das estrelas
mas no simples se encontra a paixão
e o resto é só teoria
te ter comigo um dia qualquer
é muito mais que valeria
todos os livros que jazem sepultados nas estantes
que ao tocados não se excitam
nem se arrepiam
tocar –te com palavras
ainda não me é proibido

Marcelo Moro 

Primeiro Surrealista




Há um conjunto que imagino agora
e queria Van Gogh aqui para pintar
quem sabe Dali
daqui eu vejo minha mesa habitada
por largos quadris
doces amarras
um par de coxas feito toras de madeira de lei
os pés sobre os braços da  cadeira
dando o angulo exato
que se imagina

Me fascina, me alucina tão belo desenho
De tão louco desejo
não fosse o cotton dessa poética peça
minha imaginação travaria
mas ela delineia o que antes imaginava
outro mapa
traço rotas a carvão e giz
a saliva e mel
sem bússola
sem rei
entre as mãos e o fruto que se derrama
apenas a lei imposta por seus olhos
de castanho em preto se pintando
pela indiscrição das minhas linhas

Marcelo Moro

domingo, 16 de dezembro de 2012

Mar de Domingo




É assim o mar
garrafa a boiar cheia de versos
que o mar leva e traz, compõe e desfaz
leva flores e perfumes
pra uma deusa nua e bela
e traz a paz e a mansidão, cantiga de ninar

Assim é o mar
recatado dentro de uma concha
faz soar ao ouvido mais nobre
ao ouvido peculiar de pés no chão
porque ao mar se lançam nobre e plebeu
noção azul profundo que o sol nos deu
é assim o mar a engolir ruas e cidades
Ira de Netuno, leviandade

Marcelo Moro

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Concretismo Absurdo




meu amor,
mau amor ,
bom amor,
amor perfeito,
amor com defeito,
meu delírio, mau delírio,
colírio,
minha inocência,
minha indecência,
meu suicídio,
minha coragem,
meu medo,
minha tremedeira,
meu orgasmo,
meu pleonasmo,
minha trepadeira,
meu banditismo,
minha falta de juízo,
minha geral,
faca,
pau,
pedra,
cornos,
alhos,
olhos,
meu ato falho,
Deusa,
Mãe d'água,
minha cara,
Joia Rara,
porra nenhuma,
embuste,
amante,
em suma , tudo

Marcelo Moro