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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 11





Da janela olhando o entardecer que caia e a noite que subia por detrás dos vinhedos a virgem amparava com as mãos mais uma lagrima, não comia, não sorria, já não saía do quarto, apenas olhava pela janela o momento em que os mundos se dividiam, e a noite chegava forte, trazia cheiros, vontades e desejos que não poderiam ser descritos, muitos menos percebidos por alguém.
Olhava também a criada que se esgueirava pelas sombras sumindo no meio da noite atrás de sangue, sentia o cheiro da morte, e sentia o cheiro de flores que chegava como que limpando o ar, cheiro do Narciso. De certa forma se sentia segura, não sabia como, mas algo surreal acalentava seu coração, e tocava-lhe os cabelos com candura, havia momentos em que um desejo selvagem lhe queimava e sentia também o toque firme e sensual do desconhecido que lhe afagava, que lhe dava o que buscava, noites insanas. Recebia a visita de Médicos e Padres, mas sua doença era amor, e não tinha remédio, a cada dia um desejo crescente de partir a invadia, queria o mundo, queria revirar cada cidade atrás do desejo saberia que seria guiada, faltava-lhe coragem, mais que isso, precisa reunir condições. Mas tida como louca talvez não conseguisse, era preciso reagir. Abriu o diário e releu o poema, gelava a cada vez que fazia isso. Tomou a caneta e escreveu um verso abaixo, olhou pra estrelas e leu com a voz tranqüila e quase sufocada por um choro involuntário.


“Não longe dali, apenas em outro plano
Um par de olhos de perolas raras formado
E que Lançava um olhar distante partindo de uma janela
de tantas janelas já se haviam falado
Que até confundiram a ilustração de um poema
E ao encontrar o horizonte tal olhar
Fazia laranja sobre o azul o céu
Tranqüilidade largada aos deuses, que tragam o amante”.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 10




Antes que a manhã terminasse entrou pelas ruas de um bucólico lugar, casas desbotadas, coloridas, onde o sol transpassava os quintais e as roupas quaravam nos varais, dirigiu-se a estação, o trem não havia chegado, mas não tardava, retirou suas coisas do belo corcel e chamando um garoto deu-lhe de presente o animal. Era comum que ao partir não levasse nada, mas o que havia de diferente naquela partida é que levava consigo um coração, que não muito longe dali chorava lágrimas suspensas.
Lagrimas mágicas também molhavam seu rosto ao ouvir o apito e o ranger dos dormentes, o trem partia, olhava pela janela a estação, depois parte da vila, depois os campos, e os vinhedos, as rochas, sua alma entrava num túnel, feito de muito mais que simples pedras, feito de fantasmas, e gritos inocentes, feito de sangue que escorria e lavava –lhe os cabelos e ele pode ver todos os rostos e suas expressões enquanto sangravam e sentiam que a vida se esvaia e que uma nova vida entrava, fantoches do seu poder, da sua maldição. Era incapaz de tocar sem destruir, de amar sem destituir o amor, mas o fato era que amava. A ousadia de uma jovem virgem havia lhe ferido de morte o coração, por isso partia, não queria também destruir aquela vida, destituir o amor e todos os outros valores, em sua cabeça inúmeras perguntas, becos sem saídas, viagem sem volta. Chegaria ao porto antes que a noite se precipitasse, atravessaria oceanos com aquelas imagens na cabeça, a dor, o amor, equilibrava seus passos em cima da linha tênue e eterna que divide esses sentimentos, assim como morte e vida. Suas mãos tocavam o ar como se fossem tocar os seios da doce jovem, sufocavam um pescoço ao passo que o cheiro do sangue cobria o da maresia, um grito abafado que não pôde ser ouvido através da neblina do convés, mais um corpo ao chão seco, mais um fantasma pra habitar sua mente, mais um fantoche das suas vontades.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Um conto de duas Verdades - Episódio 9




Antes de amanhecer, ele fechou sua capa, vestindo o capuz, deixou sobre a mesa do celeiro outros dois desenhos, safras futuras? Talvez! mas precisavam ser interpretados e descobertos como tal. Colocou num saco duas garrafas de vinho e amarrou bem na sela do cavalo, fez montaria e saiu a trote. Passando pela castanheira que jazia envolvida pela manhã e por uma leve neblina, fez cair um livro, um diário. Partiu sem olha pra traz, sem deixar pistas no chão. Antes da grande curva da estrada olhou pra trás e viu mais uma vez a casa, um pouco de fumaça saindo pela chaminé, sorriu e seguiu o seu destino.
Passava um pouco do habitual quando a virgem acordou, sua sensação era que parte de si não estava ali, levantou-se rápido e antes de tudo saiu em disparada rumo ao celeiro, tomada de um sentimento juvenil vasculhou o celeiro e achou apenas os desenhos, gritou, se desesperou, se arrependeu. Era só confusão e desejo, viu que suas lagrimas borravam o desenho tratou de levar os desenhos ao irmão, ninguém havia visto que ele partira, não havia cavalo sumido, nada. Voltando pra casa resolveu por intuição ir a castanheira e caído entre as raízes viu o livro, tomando nas mãos abriu e havia um verso escrito ali pela mesma pena que houvera composto os desenhos, era dele. Leu em voz baixa, leu com o espírito, leu com desejo:

Mascaras caídas num canto, perdidas
Trazendo cheiros e sabores, essência
Lembranças de um velho baile
Onde dançaram sob antigas venezas
De janelas e pontes sem fim
De gondoleiros e vampiros, capas que se abriram
Seios e bocas se encontraram
Desejo e amor enfim se fizeram de solidez e solidão.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 8





Composta a mesa a virgem pálida não podia esconder seu desconforto, sentava-se ao lado do noivo, mas já não mais sentia aquela presença, agora ela era real, ele estava ali e ocupava um lugar ao lado de seu irmão que conversava e servia-lhe o vinho animadamente como se fossem velhos amigos, mas não poderia ser, era muito novo por ali, algo havia lhe escapado aos sentidos ou melhor a atenção naqueles últimos dias.
Antes que fosse erguido o brinde o jovem nobre tomou a palavra e erguendo um pedaço de papel contou a história que lhe acontecera naquele inicio de noite e como de forma tão fantástica aquele homem novo ali de fato havia desenhando tão perfeitamente o sentimento daquela safra. O papel deu voltas na mesa e ao chegar nas mãos da moça ele percebeu que ali havia bem mais que um desenho, que ali havia um sentimento ímpar e poderia desdobrar cada um daqueles traços em milhões de sentidos, sentiu-se confusa, mas sabia que tudo aquilo eram signos que lhe falavam de um amor imemorável porque nunca houvera existido. Retomou modos e sentido ao sentir o papel ser puxado de leve das suas mãos pelo noivo que queria também ver.
A festa continuou e os olhares continuaram se cruzando, continuaram falando coisas, revelando segredos, nascendo e morrendo em sorrisos discretos e indecentes, ele se sentia dominado por um magnetismo que o despia e pela primeira vez sentia que era totalmente dependente disso, a virgem pálida era confusão.

Um conto de duas verdades - Episódio 7





O que fez a tarde toda foi ajudar os homens a montar a enorme fogueira e depois sentou-se para contemplar o crepúsculo que se aproximava, o sol tornava laranja o horizonte encerrado pelas videiras. Tomou nas mãos um pedaço de papel e um carvão e começou a traçar desenhos, rotas entre aquilo que via e sentia e a figura tomava forma, comunhão entre o medieval e o eterno. Quando finalizava percebeu que era observado e ao olhar para trás simpatizou-se com um nobre jovem que o pediu para continuar e depois quis ver mais de perto o sutil desenho.Enquanto o rosto do jovem brilhava como se estivesse diante de um achado, o pensamento dele voava longe, entre paredes e vielas, limpos e alvos lençóis de seda com a sensação de que uma chuva de água morna cobria seu corpo já tocado por lábios de eterno e intenso prazer. Despertou quando junto com o grito dos homens acendendo a fogueira ouviu também o grito do jovem às suas costas que dizia que havia encontrado o rotulo mais perfeito para as garrafas daquela safra.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 6





Durante todo o dia segurou aquele lenço e se acostumou com seu perfume, decorou e sentia que poderiam se passar séculos que aquele perfume de paixão não a abandonaria. No crepúsculo daquele dia a casa tinha tomado ares de festa, era o dia em que fizeram a primeira colheita e a noite uma grande fogueira seria acesa, o primeiro vinho seria pisado, as pessoas iriam dançar e cantar beberiam vinho, conversariam e comeriam, a virgem pálida pensava que o dono do lenço e de tanto carinho estaria entre eles, talvez pudesse devolver, talvez não quisesse.
Preparou seu banho, enquanto lá fora a euforia era muito grande, todos corriam com os preparativos, separou entre todas as essências aquela que mais gostava e ao entrar na água morna o que escorreu pelo seu corpo foram séculos de lembrança, uma lembrança segura e doce de dias atemporais, não via seu mito, mas o sentia em uma sintonia de saudosa memória. Afastava o pensamento, mas ele a dominava a fazia suspirar, sussurrar, tremer até que um êxtase se rompe em gritos desesperados onde a fuga e o gozo misturaram sensações, lá fora a fogueira foi acesa, gritos e vivas ao deus vinho que escorria pela tina sendo amassado pelo pés das virgens, dentro a virgem deixava escorrer o amor latente feito a lava do Vesúvio que abatia Pompéia.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 5






Havia chegado junto com o nascer do sol e depois de poucas palavras foi incorporado aos homens que cuidavam da lavoura, embora não trouxesse referencia e não mostrasse conhecimento parecia forte e transmitia um sentimento de lealdade, quase uma nobreza perceptível. Sentia –se estranho, não sentia fome, não sentia frio e notava que enxergava os pensamentos e ao mesmo tempo era tragado por eles, em especial um que vinha de dentro da casa, parou atônito ao pé da castanheira e desejava de toda alma entender.
Foi quando viu um belo rosto mais confuso que o seu, desejavelmente branco que destacavam lábios que pareciam estar em chamas e belos olhos fonte de todo pensamento antes imperceptível. Percebeu o confuso caminhar e ao parar viu que lagrimas molhavam seu rosto. Aparou-lhe o queixo com um dos dedos e a lagrima com outro, ofereceu-lhe seu lenço, tinha doçura no olhar e sentiu-se perdido quem sabe nesse dado momento.
Ao ouvir a voz que chamava o nome da bela donzela afastou –se rápido deixando com ela seu lenço. Ainda pôde ver quando ela se afastava a passos rápidos em direção a casa e navegou ingenuamente no balanço daqueles cabelos, belos e macios e podia senti-os entre os dedos e sabia que ela também sentia seu toque, uma cumplicidade jamais experimentada, teve ímpeto de toma-la nos braços, mas tal audácia poderia custar-lhe a permanência ali e não arriscaria o poder de estar perto em troca de um pequeno momento. Sentiu que queria o mundo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 4




Aquela manhã foi diferente, mais silenciosa, menos clara, mais fria e muito embora nossa donzela gostasse de dias frios aquele não parecia ter nada de especial, nem o cheiro de canela e baunilha com que ela havia se acostumado a chamar de outono estavam presentes.
Em algum lugar da sua alma jazia morta uma fera, mas que havia se revelado ao mais doce e fascinante dos homens quando ali deitado, no chão, inanimado.
Poderia tudo ter sido um pesadelo, na verdade vários que rondaram e seduziram aquela jovem por várias noites. Desorientavam incompreensíveis, mas não deixavam de ser tão bom. Concluía enquanto andava em torno da castanheira, já com as folhas todas amareladas pelo clima, que tivera algo mais real que a felicidade naquelas noites e intuíra que desejava de volta aqueles sentimentos dúbios, mas infinitamente deliciosos.
Encontrava-se distante quando sentiu a força de um dedo áspero e de certa forma até grosseiro levantar-lhe o queixo e ao ser fuzilada por aqueles olhos sentiu que outro dedo aparava-lhe uma lágrima que descia involuntária pela face pálida. Não teve força para protestar, na verdade nem se mexeu, aquele ser na sua frente era o bem muito embora apresentasse uma figura tipicamente masculina, bruta, com olhos de quem poderia toma-la nos braços e quem sabe arriscar um beijo. Estremecida aceitou lenço e enxugou o rosto, sentiu ao toque da seda pura uma certa nobreza e agora era a contradição que a tomava de assalto, mias um entre tantos naqueles dias, poderia um típico plebeu zelador das parreiras mostrar tanta audácia e ao mesmo tempo tanta gentileza? Dedos grossos e calejados portar tão nobre e macia seda? Mágica e loucura, e a ternura fez –lhe soltar um sorriso que encontrou-se com o do homem que já sorria. Sim era um homem, carne, osso e sentimentos, provocava sensações reais, menos intensas, mas também menos confusas que aquela sombra que a rondava de noite. Foram segundos, quem sabe um ou dois minutos antes que ouvisse a voz que a chamava de algum ponto da casa, mas o suficiente para marcar aquela fisionomia e os sentimentos que os gestos traduziam, e sentiu-se entregue e segura, sem que realmente conhecesse tais sentimentos.

Marcelo Moro

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Um conto de duas Verdades - Episódio 3





A virgem pálida suplicava pela noite embora ainda reinasse o crepúsculo e depois disso a ceia e ainda um período onde todos se movem sem parar pela casa, por mais sensibilidade que tivesse não poderia senti-lo tão cedo, mas sabia que viria. Longe na noite a porta se abriu e dois grandes olhos também. Entre as parreiras um movimento sutil anunciava sua chegada. A chama de uma vela iluminava o caminho que a moça percorria a passos firmes em direção ao celeiro. Ela entra e a grande porta se fecha, o rangido pode ter acordado alguém, mas a mente indica que todos estão sob controle daquele que lhe faz companhia nas trevas, ali dentro. A vela se apaga, mas o ambiente ganha tons azulados que não chegam a luz, mas beiram a inocência, ela o vê, ele fala de paixão, ela responde com gestos e ações desesperadas os dois se enlaçam. O poder e a inocência tocando o mesmo espaço, o desespero e a tranqüilidade desabam sobre o mesmo solo, a candura, a doçura e paixão controlam-lhe o instinto ele não é capaz de morde-la e transforma-la no nada, ela tem lampejos de razão, mas não quem não vêem a tona totalmente. Dúvida, a inocente duvida, a eficaz proteção causam a dor aguda. Ele se vira e olha o buraco aberto em seu peito, pensa, e ao sentir o gosto amargo do sangue tomar-lhe a boca diz inconseqüente – Foi melhor assim. A virgem nua parada olha e arremete novamente a estaca de carvalho naquele peito já ferido e sangrando que cai, foi –se o mito. Ali no chão agora há um homem. A moça berra e acorda já na sua cama, já livre do sangue ouve pela janela os pássaros e vê –se entre os raios de sol que furam a janela, intocada, arrependida.

Marcelo Moro

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 2




Naquela noite ele não se surpreendeu que a sua ama de sangue e sexo não tivesse ido ao celeiro encontra-lo, era já uma morta viva e estava definhado durante as horas de sol deitada no quarto escuro sob o pretexto de estar doente. Ficou ali recitando poemas antigos debaixo da sombra da castanheira, versos que chegavam a uma linda moça que jazia impávida e lívida dentro do seu quarto, escutando como que por mágica a sua voz sedutora. Há vários dias ele a havia percebido contorcer-se dentro do seu vestido ouvindo as lamurias e sussurros da outra dentro do celeiro, encantou-se por ela. Na noite seguinte rondou-lhe os sentidos provocando calafrios em seus ossos e descobriu dela todas as verdades ocultas, o suficiente para que o encanto virasse um descômodo desejo ora repelido e ora recíproco da parte da virgem pálida que lhe respondia todas as perguntas. Moveu-se em torno da casa e sabia que ela o via em sonhos e o sentia na pele, nos cabelos e em todos os órgãos. Ali na castanheira ele e só ele sabia que o convite mortal já havia sido feito, ela o convidara e ele percebera, mas evitava maquinar entrar naquela casa se fosse simplesmente para aviltar a tranqüilidade da jovem, sentia sintomas de paixão, mas era tranqüilo e isso o fazia esperar. A aurora quando chega vai rompendo a barra do céu de repente e o laranja vai subindo eliminando as sombras. Ele se foi.

Marcelo Moro

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 1



Gostava de saber que ele estava ali, a virgem pálida, rondando-lhe a casa. Quem sabe um dia poderia vê-lo ou com mais sorte toca-lo. Seria perigoso? Pouco importava, eram os ruídos sujos e inenarráveis que ela ouvia quando no meio das noites via pelas frestas da janela a empregada fugir para o celeiro, que a conduzia com firmeza ao intento de ver e tocar aquela criatura feita de sombras. Naquela noite em particular a empregada não saíra, mas a mocinha sabia que na noite, lá fora, aquele ser espreitava entre as parreiras, quem sabe no celeiro. Duas noites antes acontecera o mesmo e ela começou a ouvir dentro da sua cabeça as respostas aos seus mais íntimos questionamentos. Era como se nada, nem paredes, nem portas detivessem a voz que lhe chegava aos ouvidos seca, firme e ao mesmo tempo suave, encantadora. A virgem que não era de todo tola imaginava ser aquilo telepatia, e também imaginava que algo sedutor se avizinhava, algo de que deveria fugir, mas longe disse e também por não ser tola aquilo tudo atraíra cada vez mais sua atenção e algo mais dentro dela. Naquela noite em certos momentos teve que conter-se para não abrir a janela pois percebera que aquele que se movia lá fora estava a poucos metros dali na escura sombra da castanheira e olhava atentamente para dentro do seu quarto, como se não houvesse entre eles janela, parede ou cortinas. Ela se sentia devorada com olhos e isso a fazia queimar, suava entre os seios e no rosto nossa donzela.Ela não entendia como e nem porque aquele ser com tantos poderes especiais não entrava em seu quarto e a tomava em seus braços possuindo-a de vez ao som daqueles poemas seicentistas que ouvia todas as noites em seus sonhos antes do dia amanhecer, eram tão nítidos que poderia escreve-los.
Então essa resposta foi a única que não obteve naquela noite e quando a aurora tomou o céu ela sentindo-se sozinha procurou a resposta entre os livros da pequena biblioteca que equipava a casa.. E lá entre uns contos ela achou uma anotação no canto amarelado de uma das paginas, demorou a decifrar as letras em estilo gótico e desbotadas pelos anos, mas leu claramente. “Um vampiro não entra em sua casa sem que seja cortesmente convidado”


Marcelo Moro


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Laços




Viagem das mãos,
O abraço, o tato, o aperto dos laços
Os nós, a solidão a sós
E os dois olhares que nunca se cruzaram
Hão de se encontar e aquecer o inverno
Da fria e úmida cidade
Um beijo, um detalhe e um abraço terno
Entres as blumas e promessas de eternidade

Mãos que nunca se tocaram e se conhecem
Vestígios de uma noite passada que nunca passou
E aqui de onde estou enxergo seus jardins
Consumo seus afins como um viciado em teu sorriso
E beijo, e agonizo com o tempo que não passa
Com as horas que não curam
E leio as cartas recebidas, enviadas quando ainda chovia
Se curvam espaço e tempo, uma equação, uma trapaça

Entre nós um paralelo
Um elo que não dá explicações
Um zelo que não tem o porque correto
Um veto, um novelo , ocasiões
O bem querer, o desejo e a fúria
a mansidão, o despejo e a Fuga
A solidez do ato insólito, o traço
Os anos que passam, o abraço, o tato e o aperto dos laços

Marcelo Moro 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Câmera Obscura





Câmera obscura
Imagens nuas
Tenho saudade do tempo em que tudo era perfeito
Que as coisas que fazia faziam efeito
E essa solidão vivida a dois não existia
Simplesmente por eu ser eu
E você o que queria

Marcelo Moro

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

As Rosas do Quintal




Eram belas as rosas do quintal
Um enigma em cada pétala ao vento
Respondiam perguntas aquelas cores,
Eram pérolas
Amores rogados ao tempo,
Visões, etecetera e tal

Eram bem cuidadas as Rosas do Quintal
Por mãos fortes e belas
Que nos deixaram num Agosto qualquer,sem explicações
E o barqueiro esqueceu as rosas no quintal
Alimentando a saudade
Expostas ao céu, ao chão , às exceções

Salvaram-se as rosas do quintal
Adornaram vasos por uma semana ou mais
Em seu lugar paredes de mau  gosto, se quer acabadas
Secaram sem que alguma bela menina as colocasse entre as folhas de um caderno
Rogo sempre por Setembro logo,como se mudasse o astral
Que se estivessem vivas as mãos e as Rosas do quintal

Marcelo Moro

domingo, 2 de setembro de 2012

Visita-se o Caos



Sente-se o Caos,
Viaja-se pelo Caos,
Respira-se o Caos,
Teme-se o Caos
Desmente-se o Caos,
Reconstrói-se o Caos,

Nada além de um Domingo 23:37

Marcelo Moro