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domingo, 30 de dezembro de 2012

Ato




Na indecisa decisão de se abrir o ultimo botão
Na incerta certeza de dispor-se das meias
Surge a canção, tatuada nos ombros,
Onde o beijo é um teste atômico, viajando pelas veias
E a língua varre os confins, como um tsunami
E da sua razão sobram escombros
E da sua religião a Genuflexão em tons de veludo
E o abuso é te elogiar nos ouvidos, inundar
E um beijo fugaz deixa mudo , zonzo
E as cortinas escancaradas , esquecidas

Marcelo Moro

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Soneto 1





Não é apenas uma xícara de café meu chapa
É um mar escuro, é um vício, uma ficção
É companheiro na solidão
Inspiração do poeta

É um exagero, um orgasmo
Traz à tona pensamentos e paixões
Vence desertos com  estimulações
Cachos de cabelos formando maremotos

E por falar em paixões e maremotos
Estimulações e orgasmos
Fecho contigo e faço votos

Que quando acabar, assim morra
Teu sabor em minha língua
E imagem doce dela como previsão na tua borra

Marcelo Moro

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Soneto 2




onde te leva toda essa arrogância ?
essa ignorância sobre o amor ?
essa estupidez com a flor ?
essa errante fragrância de fel ?

onde te leva essa resistência ?
sabendo que os heróis são outros ?
onde chegará a altura desse muro?
e se precisar das pedras para fazer pontes?

e quando faltar a luz?
e quando faltar a gasolina?
e quando faltar quem carrega sua cruz ?

e quando estiver sozinha ?
e quando quiser chorar e culpar ?
e quando faltar a letra na linha ?

Marcelo Moro

Futuro do Pretérito





Um amigo me disse, cego!
Não vês o corte da faca
Vês menos a fronteira da razão
Respondo, amigo
O que pingo nos olhos são gotas azuis
Um colírio além da imaginação
Uma tinta de tempero surreal

Se assim fosse, cego
O toque me bastaria
Quem toca igual perfume virtual
Perde-se
E de nada valeria manter-se são
Vê-se no espelho um igual
Porque se conhece

Gotas, tintas, perfumes
Nuances que descrevem
Quem sabe a cor do seu vestido
Escrevem Transmutações de sentidos
Me perco no que acho
Das ondulações dos seus cabelos
Filosofa da razão

Quem se importa
Se me chamam cego
Importa –me mais o que pensas
No meio da noite
Suposições e crenças
Deitada nua ao meu lado e sem desejo
Isso me faz de fato cego

Mas se apenas uma centelha
Uma que seja brilhe
Entre uma gota de vinho e outra
Entre uma gota que escorre
Marota por entre as curvas do decote
Olhar que se fixa e morre
Meus olhos se abrem, me torno vivo

Mas enquanto tudo é cinza
Sopro a brasa e espero
Faço de conta que acredito
Na voz côncava do amigo
Que me chama de cego
Mas me escondo no convexo
De ser um incorrigível.

Marcelo Moro

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Décimo Segundo Surrealista




Nas tardes-noites de dezembro,
Eu deixo a cidade pra trás
E costumo olhar pelo espelho
Quando o sol se derrama vermelho
Entre as brechas dos edifícios e catedrais

Costumo localizar as coisas
Ruas, esquinas, escadas,
Imagino quantas noticias de jornais
São tecidas no momento que vejo
Alguém morre, alguém nasce, desaparece; pra nunca mais
  
Muitos amam, odeiam, matam-se,
Fogem, prometem e roubam,
E o importante é a luz que se faz
Um pouco mais cedo a cidade parecia dourada,
Ardia em brasa, asfalto, solo de sax, flores de plástico,
  
Tenho tido esse sonho muitas vezes
Por muitos dias seguidos,
Sonho real, tantas vezes já vi esse quadro,
No sonho estás comigo, encantada, mágica, assim,
Te mostro pelo espelho e você sorri pra mim

Marcelo Moro

sábado, 22 de dezembro de 2012

Décimo Primeiro Surrealista




O mar prata sob a lua,
A garota na praia, estrela nua,
O desejo sobre as pedras,
Dedos, línguas, toque do fogo,
O novo, o gozo, as pernas tremulas,
Derrete-se, esquece tudo que gira ao redor,
A cabeça gira, pomba gira doida,
Grita, morde, arranha,
Desorganiza o cabelo, arranca;


A caminho do mar, a saia branca balança,
Meus olhos a seguem onde a vista alcança
A água, o sal, o azul marinho,
Grito seu nome, indecência,
Rouba-me a noite das mãos sua inocência
Curvo –te o corpo, e entro, espuma branca ganham os joelhos,
Entro em ti fundo, estremeço,
É o começo e o fim, é o meio;
O gozo escorre, meu, teu, desejo...

Marcelo Moro

Décimo Surrealista





Quero provar da tua língua a saliva, me leva,
Ver-te fruto proibido, e tocar-te o proibido fruto,
Com golpes de língua sem veneno, não cabe ao veneno função.
Sentir então teu gosto, apurar, perceber todas as essências,
Dizer-te bobagens, abrigar-te nos braços,
Deixar-te vermelha e tesa, empinar-te os seios como quem beija a lua,
Sugar-te, lamber-te, deixar-te nua,
E quando em fim dobrada em gozo gritas,
Amparar-te sábio, homem, macho;
E entrar em ti como quem entra em casa
Como quem tem a chave
Mágica, sensual, brasa.

Marcelo Moro

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Nono Surrealista




Como poeta posso ser
Dono das linhas, do lápis, das minhas imaginações
Como profeta adivinhar-te o futuro
E colocar num muro surdo suas previsões
Como visionário te ver exuberante
Num vestido azul turquesa

Ocorre agora que sou homem
E quero ser o corpo que você acha gostoso
O rosto que você acha bonito
O espelho, o orgasmo, o novelo
O livro que você lê e escreve nas suas paginas
O vento que esvoaça e bagunça seu cabelo

Ser a noite em que se perde
A musica que você dança, e canta e sua
A brisa que toca seu corpo nu
Nas manhãs em que esquece aberta a janela
Estar perto se chora, se deseja, se espera
Ser o invisível aos olhos, ser o que se sente

Seu filme, seu perfume, seu pecado
Seu crime sem castigo, inconfessável
O macho, o doce, o anjo, o torto
Sua vida em vitral, o cais do porto
Seu céu , astral, a estrela que te guia
Seu signo, destino, família, tudo , par

Marcelo Moro

Oitavo Surrealista





Dentro dos olhos nus, não é mais abstração
Dentro do corpo nu, império dos sentidos
flui pelo sangue, visão
rosas vermelhas que vi essa manhã
numa banca qualquer, cor de fogo
fogo paixão, óleo sobre tela

Não é mais uma brincadeira de papel e lápis
é amor de verdade
em essência, em pétalas e caule
amor vivo que dissipa ardores
amor vivo que revive amores
luzes e cores novas toda manhã

Marcelo Moro

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Sétimo Surrealista







Te dispo
Te visto, de seda cinza chumbo
Solto seus cabelos, dou a volta ao mundo
Olho a bússola imprecisa
Aureolas rosas escondidas , rosa dos ventos

Prazer infinito,
Dona de um sorriso bonito e dourado
Não sei se te devoro
Ou se te dou um carinho delicado
Algo entre a criança e o voraz

Tudo que me pede, farei
Escravo sob suas leis
Senhor do teu juízo
Algo impreciso, puro tesão
Mãos que devoram mãos

Não me faltes
Em manhãs ou noites
Coloridas ou cinzentas
Não me falte nunca
Pura, abusada, liberada, ciumenta

Marcelo Moro

Sexto Surrealista




O olhar pra uma janela, na diagonal do tempo
O vento veloz , azul pensamento atroz
Sei que tuas mãos manejam o fogo
Sei que o tom triste desse sorriso esconde desejos
Enigma pra onde corro quando sofro
Decifrar-te seria querer-te
Sabiam meus olhos quando fizeram contato
Mesmo assim arriscado e feliz
Deixei - te passear entre as minhas flores
Desorganizados girassóis, óleo sobre tela
Imaginar cheiros e gestos torna-se doutrina dos versos
Ser livre para dançar em torno da fogueira, acaso
Os vales e campos são seus olhando da escarpa
Seus olhos são os que varrem a solidez da tarde
Precipitando a noite surreal
Onde estrelas e velhos marinheiros se amam
Onde poetas e sorrisos ocultos se encontram
Mesmo que seja no recôndito remoto da alma
Mesmo que sejam nas paginas de um livro
Mesmo que sejam em pedaços pequenos de vidro

Marcelo Moro

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Quinto Surrealista





Mesmo se tentasse, por todos os seus erros
Precisar a duração dessa noite
De nada adiantaria
Porque os caminhos dos ponteiros continuaram os mesmos
Foi só a alma quem parou
Desorganizada teoria

E se assim pelos poros vertessem perfumes
Nessa noite seriam os venenos o que destilariam
Os mais perigosos, coloridos e mortais
Inocentes olhadas no espelho
Por cima dos ombros tanto faz
Se a noite jaz ou se jaz o dia

Se tentasse entender, a loucura te tomaria
E ganharia as ruas como eu ganhei
Não para desafiar os joelhos
Cegos, surdos e pagãos
Mas para olhar a lua sem dores
E as coisas voltariam para onde estão

Seis, sete, oito da manhã
As bancas vendem manchetes
Crimes e novas vedetes
Capitalismo sem juízo,
Me junto ao bando que da lua nada sabe
Sabem apenas das horas

Iluministas e iluminados
Bêbados e equilibristas
Todo mundo voltando para casa
De onde eu não deveria ter saído
E onde os ponteiros me oprimiam
Mesmo com a lua tão bela na sacada da sala

Marcelo Moro

Quarto Surrealista




Das mãos esquálidas que tocam a pedra nua entalhada
Brotam chamas azuis que em laranja se tornam
Focam-se pares de olhos sobre a batalha de cavalos
Se distraem, e a mente se esquece das perigosas diagonais
Esperança tornada em jamais, em torrentes de perdas
Muros que se interpõem caem
Lábios que se propõem, beijam
Ah! Como gostaria que não houvesse medo
Nem tampouco pudor nesse segredo
Viagem das mãos, jovens capitães.

Marcelo Moro

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Terceiro Surrealista




Um movimento
Uma espera
A frase não se completa
Se transforma em solidão
A palavra no ar
Como ao ar se lançam mãos

Travessas e becos mal iluminados
O mar de Camões
Pra quem não conhece o mar
Se jogar uma luz, fica óbvio
Se deixar sombrio, viram sermões
Dúvidas, dívidas da razão

Senhores escravos
Que a certeza corrompe, calai!
Deixai que falem as lacunas
Amigas eternas de quem sabe o mar
De quem ouve as dunas
De quem se orienta pelas estrelas

Marcelo Moro

Segundo Surrealista




Desse covil de ardentes pensamentos
Vivendo intensamente de revista e café
Um blues qualquer, quem sabe um jazz
Me inspira a escrever à mão
À luz de velas como no passado
Em outros devaneios que se vão
Que se foram

E você musa distinta?
Que não vem, que se atrasa na escuridão
Que eu inventei desse dia de sol
Que se aparecesse eu correria
Pra me esconder em um castelo de cartas marcadas
A vigiar pelas ameias da canastra
De espadas, de ouro, qualquer
Vigiar
As brilhantes madeixas de uma cor impublicável
Pois não seria pudico nem prudente
Ao poeta descrever sua musa
Coloca-la a nu
Como a coloca em fantasias, teso e duro

Se ao revelar-me sondando teus passos
E me indagares
Responderei –te em ato
porque as palavras falham
e se vingam do seu autor
prosperando, de boca em boca
distorcendo, mudando

queria te falar mais
da poeira do chão ao pó das estrelas
mas no simples se encontra a paixão
e o resto é só teoria
te ter comigo um dia qualquer
é muito mais que valeria
todos os livros que jazem sepultados nas estantes
que ao tocados não se excitam
nem se arrepiam
tocar –te com palavras
ainda não me é proibido

Marcelo Moro 

Primeiro Surrealista




Há um conjunto que imagino agora
e queria Van Gogh aqui para pintar
quem sabe Dali
daqui eu vejo minha mesa habitada
por largos quadris
doces amarras
um par de coxas feito toras de madeira de lei
os pés sobre os braços da  cadeira
dando o angulo exato
que se imagina

Me fascina, me alucina tão belo desenho
De tão louco desejo
não fosse o cotton dessa poética peça
minha imaginação travaria
mas ela delineia o que antes imaginava
outro mapa
traço rotas a carvão e giz
a saliva e mel
sem bússola
sem rei
entre as mãos e o fruto que se derrama
apenas a lei imposta por seus olhos
de castanho em preto se pintando
pela indiscrição das minhas linhas

Marcelo Moro

domingo, 16 de dezembro de 2012

Mar de Domingo




É assim o mar
garrafa a boiar cheia de versos
que o mar leva e traz, compõe e desfaz
leva flores e perfumes
pra uma deusa nua e bela
e traz a paz e a mansidão, cantiga de ninar

Assim é o mar
recatado dentro de uma concha
faz soar ao ouvido mais nobre
ao ouvido peculiar de pés no chão
porque ao mar se lançam nobre e plebeu
noção azul profundo que o sol nos deu
é assim o mar a engolir ruas e cidades
Ira de Netuno, leviandade

Marcelo Moro

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Concretismo Absurdo




meu amor,
mau amor ,
bom amor,
amor perfeito,
amor com defeito,
meu delírio, mau delírio,
colírio,
minha inocência,
minha indecência,
meu suicídio,
minha coragem,
meu medo,
minha tremedeira,
meu orgasmo,
meu pleonasmo,
minha trepadeira,
meu banditismo,
minha falta de juízo,
minha geral,
faca,
pau,
pedra,
cornos,
alhos,
olhos,
meu ato falho,
Deusa,
Mãe d'água,
minha cara,
Joia Rara,
porra nenhuma,
embuste,
amante,
em suma , tudo

Marcelo Moro

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Canção aos olhos que não vejo




Queria conhecer seus segredos, de fato
quem sabe como cego, pelo tato
quem sabe o tempo é o vento
e quem sabe de ti quando bate aqui sou eu

Talvez você vire um ideograma japonês em uma camiseta
saudade
Ideal
etiqueta
que não desbota quando perco a razão

que não vejo outra coisa a não ser desejo
que vejo com outros olhos quando poderia ouvi-la tão bem
o sol se pôs pequena grande mulher
a lua no céu outra vez me trás também a certeza
que o vento é vento e que no pó escrevo seu nome

fome
leveza;
E mais tantos outros cavaleiros ocultos

Marcelo Moro

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Tato




E de tanto te conhecer, te conheço o mapa
E de esperar o vento vira acaso
que te traz e te leva e te deixa ficar
ninguém diz o que eu faço
ninguém me dita regras
mas você pode me ditar, assim como pode tudo
Você não cabe no verso, na canção , na rima
é maior que o mar, que o mapa , que eu
dá prazer tocar o ar e desenhar suas delicadas formas
e sentir pelo tato, o arrepio impresso na tua pele
e vagar pelo sopro dos teus lábios na minha orelha
e ouvir as palavras secretas.

Marcelo Moro

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Fênix





A cada vez que respiro, suspiro
Com o som único de cada um dos mil botões
Abrindo em dois o pano, cor de vinho, madeira
Que me revela quintas em flor, violões
Em canções de amor e presságios de guerra
Estúpida como qualquer guerra
Passível de ser vencida pelos querubins
Que habitam seus cabelos e suas flechas de fogo
Que aos poucos derramam luz do céu

E as vozes grossas e as patas pesadas de mil grosserias
Caem como estrelas devolvendo o caos
E a mão doce, de amor banhada
Recompõe as essências e cria os rios e jardins, perfumarias
E me olha acanhada, sofrida
E me faz crer que é preciso alquimia de nós
Deuses astronautas, pacientes seres viajantes do tempo
Amantes ao vento de um dia de sol

Marcelo Moro

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Haikai 1 -11



Haikai 1


Eu te espero
Meto-me em desejar
Tanto que quero

Marcelo Moro

Haikai 2


Flores em você
É o que sempre vejo
Poemas e sons

Marcelo Moro


Haikai 3

Sopro do Dragão
Aquele tatuado
No fim do Mundo

Marcelo Moro


Haikai 4

Fios dourados
Ouro ornamentando
A pele ao sol

Marcelo Moro


Haikai 5

O céu enluta
Flores choram seus perfumes
voz que se cala

Marcelo Moro

Haikai 6

Não há silencio
Antes existem gritos
Dor, prazer, gozo

Marcelo Moro


Haikai 7

Me é proibida
Mas tenho a ousadia
Toco com poemas

Marcelo Moro


Haikai 8

Teu suor em mim
Imaginação Fugaz
A noite te traz

Marcelo Moro


Haikai 9

Dos olhos aos pés
Você me conquista
Entra nos poros

Marcelo Moro


Haikai 10

Quem te faz feliz?
O que te faz suspirar?
Intenção, gesto?

Marcelo Moro


Haikai 11

Porque foges só ?
Juntos, seria mágico
O belo, a cor

Marcelo Moro

*são desejos cada um dos Haikais, são resumos de sonhos e imaginações, sentimentos e sensações, sentidos que afloram da alma pra caneta, desenhos que nascem da mágica posição entre o real e o antes que adormeça...

domingo, 9 de dezembro de 2012

Grito




O grito escuro, estrábico, estranho
de dor, de amor, de ódio
de ócio, de ópio, caos
se te escondem a verdade, grita
o grito calmo, calvo, estúpido
ruído surdo, cáustico, único
Causa, efeito, cheiro e cor
emoção, comoção, vibração, horror
O grito mórbido, movimento
seco, óleo, pensamento
protesto, evento, ato
ranger,suor, fato
Grita ao nascer, ao verter, ao gozar
Grito de saco cheio, pasmo
grito de dor, orgasmo

Marcelo Moro

sábado, 8 de dezembro de 2012

Despretensiosa Delícia




Os pés descalços pela estrada mansa
A cor do céu no seu vestido
Se estivesse onde a minha mão alcança
Colocaria uma flor amarela em seu cabelo,
Para quebrar a monotonia, mudar seu ritmo
Traduzir seu pensamento em frases num muro

Contar meu tempo em seu colar de conchas
E a tarde passaria calma
Deixar exalar sua essência, perfumando minha alma
Girar o corpo, assim como gira a vela num sopro, navegar
Espiar por entre as frestas dos seus olhos
E te ver vestindo o mar

Marcelo Moro

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Oscar ...Ah !! Oscar





Lições de Arquitetura

No ombro do planeta(em Caracas)
Oscar depositou para sempre uma ave
uma flor
(ele não faz de pedra nossas casas: faz de asas)

No coração de Argel sofrida
fez aterrizar uma tarde uma nave estelar
e linda como ainda há de ser a vida
(com seu traço futuro Oscar nos ensina que o sonho é popular)

Nos ensina a sonhar mesmo se lidamos com matéria dura:
o ferro o cimento
a fome da humana a arquitetura
nos ensina a viver no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo
Oscar nos ensina que a beleza é leve

(Ferreira Gullar)

*pensei em escrever algo, alguma poesia em nome da curva, em nome do homem que nos ensinou que a beleza é leve, mas esse do Gullar é mágico, é todo, talvez eu ainda escreva ...

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Soneto da Vastidão




De tão vasta não se vê o horizonte
De tão farta me sacia as noites e dias
Calma, ocupa espaço e tempo
Doida, me mostra o rosto essa fantasia

De tão cálida me dá a chuva
Tórrida, queima-me a mão
Ácida, me estapeia com a realidade
Deliciosa, me devolve à ilusão

Apenas há de pintar um quadro
Tela que fale de verdade em flor
Enquanto me é proibido o fruto

Objetos inanimados
Enquanto a vida passa veloz
Corpos queimados no chão, distância atroz

Marcelo Moro

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Carmim




É delicioso o perfume da menina
Importado da flor dentro da imaginação
É tão linda a menina,
Delicada quando anda
Sutil quando se senta, quase formal
E quando se levanta aí é a perdição

É tão presente a menina,e seu cabelo californiano
As vezes preso por um enfeite, por outras solto ao vento
É quase uma canção perdida no Caos, um pensamento
Desses com poder de criar forma simétricas
Quando vem vestida em Vermelho Flamboyant
Chega a ser erética, erótica, morte da santidade tranquila

É tão sozinha a Menina
Mas sorri de vez em quando
Fogueira queimando poetas e poemas
É miseravelmente gostosa a boca dessa menina
Variações sobre um mesmo tema
É o lado quente e doce dessas manhãs amargas e indecisas

Marcelo Moro

*créditos do Título a Talita Batista

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Um Poema sem Solução




Uma viagem entre harmonicos de guitarra
Ouvi um suspirar no lado escuro da retina,
Numa alameda de acácias
Um passo a mais e lá estava  misturada nas sombras

Lavanda sobre a pele,
Os sentidos todos a te sentir
Vestida de ventos e fogo,
Dançando com a brasa de um cigarro

Desenhando no ar as serpentes encantadas dos seus sonhos
Sonhos despojados e guardados no fundo do armário
Para que um dia pudesse brotar
Como um lírio brota sozinho no campo

Marcelo Moro

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Menina de Goya



Dá-me um sorriso musa de Goya,
Anjo dos céus de Michelangelo;
Me faz um afago, lança em minha mão uma esmola;
E sobe las ramblas rumbeando os quadris
Harmonia de pincéis que me deixa sôfrego,
Frágil, Aceso e Lúcido.
Curvas impressionantes de Oscar
Perfeitas pretuberâncias, que ficariam mais ricas,
Mais Rijas com a dança da minha língua,
Mais vivas com toques de mel e saliva,
És tinta e imaginação, letra e rima
És pele e arrepio a soletrar o poema .

Marcelo Moro

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sob o Sol de Sparta




Eu dei um gole de você pra minha alma
ela me deu a alegria de gostar de você
eu te tomei gota a gota e amei com calma
razão do meu bem querer, meu encanto ...

Meu djavanear sereno de todo dia
meu pão nosso de toda hora comido sem pressa
a agonia da falta, a alegria da vinda, a festa da volta...
a carta de um naufrago quando chega resposta

Você é algo assim como um sol num paraíso perdido
a manhã cintilante de um planeta distante, revolto, romântico
a primeira e a última, cântaro de Bálsamo, que suaviza o cântico
e os deuses pagãos ou não, ateus ou não se encantam

Eu dei um gole de você para meu quintal
e ele me devolveu o mais belo amarelo, em forma de flor
o amarelo sem limites, isso quer dizer amor, que salva
que une mundos no redondo miolo da flor...isso é amor, basta sonhar, tocar, viver...


Marcelo Moro

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Um conto de Duas verdades - Episódio 13 - Final




- Torna-me imortal! Pediu ela de sopetão a criada dentro do celeiro escuro embora brilhasse lá fora o dia. A criada, que removia o feno com um garfo, gargalhou como se esperasse há dias por aquele estranho pedido, fincou o garfo no monte de feno e contornando o corpo da virgem como numa dança doentia ria, toda suada num vestido simples, se aproximava mais e mais, a moça no centro daquele rito estava impávida, mas lívida, tremia. Estendeu o delicado braço branco e perfumado o pulso voltado pra cima, os olhos da criada se fizeram escuros como se fosse um infinito sem fim, gemeu de prazer, suas veias saltaram sua boca se encheu de saliva, tomando a mão da jovem lambeu-a, o pulso, o braço, a virgem arfou num misto de prazer e medo. Aquele momento era solidão tornada em jamais, uma torrente de perdas a espera de ganhar a vida pelo amor que sentia, sentiu a mordida profunda, doeu apenas por frações de segundos, daí em diante o coração disparava, gozava, sem força para manter-se sentia a vida esvair, ir embora para onde não sabia, caiu, morria, sua mente viajava por um campo de sândalos e alfazema pra mergulhar num bosque pantanoso e fétido com carvalhos antigos e muitos deles mortos, havia muitas pessoas perambulando por ali, mortos – vivos sedentos de sangue e seu corpo era uma garrafa vazia que ainda exalava o cheiro do vinho mais puro. Ouviu uma voz, longe, depois mais perto, chamava seu nome, seus olhos se abriram e ela sentiu pavor, paixão e amor. Ali diante dela estava ele metido numa capa preta, trazia o rosto coberto por uma máscara prata, estendendo a mão pediu a ela o punhal, confusa e sem força, mas sem hesitar entrega-lhe dando –lho virado pelo cabo. Deixando cair a mascara e o capuz ele se abaixa e se aproxima, ela é capaz de sentir o calor, a fragrância daquele corpo, com um golpe de punhal ele rasga a camisa e abre no peito um corte lento e profundo, o sangue jorra, escorre, ela sente fome, sede e desejo, tomando o corpo frágil da moça ele levanta até que sua boca possa alcançar-lhe o peito, seus ouvidos se abrem e uma voz doce toca-lhe os sentidos.- Toma, bebe e viva eternamente meu amor, minha vida e minha morte. Tudo ao redor se ilumina com luz de tochas, embora ainda impere a noite e a garoa fria, todos os sons voltam, o toque na pele, os cheiros, a visão, a virgem olha ao redor, o casario, as pessoas fantasiadas, a orgia, a maresia queima-lhe o nariz, uma jovem declama em uma língua estranha:   -Nel vino se nasconde la verità.

Marcelo Moro 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 12




Seus sonhos naquela noite foram revelações, via a cidade sobre as águas, noites iluminadas por tocheiros, as sombras que se moviam pelas vielas traziam seus rostos ocultos por máscaras, traziam suas vidas ocultas por capas e perfumes. Em todos os cantos a dança, o canto, o vinho, o carnaval era a ousadia que se esperava fazer estremecer a jovem virgem no seu leito de morte, mas ainda viva soletrava poemas imundos e ria, de que importava estar viva se tudo que importava transitava entre a vida e a morte? Via os corpos perfeitos de mulheres em vestidos descomunais, via pescoços e pulsos estraçalhados, mortas e ainda sorrindo, vivas e livres de todos os conceitos toscos que há prendiam ali entre a porta e a janela, entre a moral e os bons costumes, entre o preceito e o amor sem medida, incondicional. Ela o matara uma vez, como poderia ter ressurgido? E nas suas visões mais assassino que nunca, mais faminto do que fora por toda sua existência, como podia transitar entre os vivos? Cheirar tão bem, causar tanto prazer? Como tudo que o cercava, perguntas sem resposta.
Ali na sua cama ardendo feito brasa, se deleitava em segui-lo pelas ruas estreitas e becos, sentia agonia e prazer ao vê-lo sentir prazer enquanto distribuía orgasmos e morte, mascaras e corpos, feitos pacotes inanimados, caiam ao chão sujo e fétido da noite, a maresia, o brilho do punhal que ela trazia na mão, tudo isso compunham um teatro épico de amor e sedução, de vida e de morte, no seu sonho ela refazia o caos, queria estar ali, desejava ardentemente ser envolvida naquela trama, decorava seu papel.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 11





Da janela olhando o entardecer que caia e a noite que subia por detrás dos vinhedos a virgem amparava com as mãos mais uma lagrima, não comia, não sorria, já não saía do quarto, apenas olhava pela janela o momento em que os mundos se dividiam, e a noite chegava forte, trazia cheiros, vontades e desejos que não poderiam ser descritos, muitos menos percebidos por alguém.
Olhava também a criada que se esgueirava pelas sombras sumindo no meio da noite atrás de sangue, sentia o cheiro da morte, e sentia o cheiro de flores que chegava como que limpando o ar, cheiro do Narciso. De certa forma se sentia segura, não sabia como, mas algo surreal acalentava seu coração, e tocava-lhe os cabelos com candura, havia momentos em que um desejo selvagem lhe queimava e sentia também o toque firme e sensual do desconhecido que lhe afagava, que lhe dava o que buscava, noites insanas. Recebia a visita de Médicos e Padres, mas sua doença era amor, e não tinha remédio, a cada dia um desejo crescente de partir a invadia, queria o mundo, queria revirar cada cidade atrás do desejo saberia que seria guiada, faltava-lhe coragem, mais que isso, precisa reunir condições. Mas tida como louca talvez não conseguisse, era preciso reagir. Abriu o diário e releu o poema, gelava a cada vez que fazia isso. Tomou a caneta e escreveu um verso abaixo, olhou pra estrelas e leu com a voz tranqüila e quase sufocada por um choro involuntário.


“Não longe dali, apenas em outro plano
Um par de olhos de perolas raras formado
E que Lançava um olhar distante partindo de uma janela
de tantas janelas já se haviam falado
Que até confundiram a ilustração de um poema
E ao encontrar o horizonte tal olhar
Fazia laranja sobre o azul o céu
Tranqüilidade largada aos deuses, que tragam o amante”.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 10




Antes que a manhã terminasse entrou pelas ruas de um bucólico lugar, casas desbotadas, coloridas, onde o sol transpassava os quintais e as roupas quaravam nos varais, dirigiu-se a estação, o trem não havia chegado, mas não tardava, retirou suas coisas do belo corcel e chamando um garoto deu-lhe de presente o animal. Era comum que ao partir não levasse nada, mas o que havia de diferente naquela partida é que levava consigo um coração, que não muito longe dali chorava lágrimas suspensas.
Lagrimas mágicas também molhavam seu rosto ao ouvir o apito e o ranger dos dormentes, o trem partia, olhava pela janela a estação, depois parte da vila, depois os campos, e os vinhedos, as rochas, sua alma entrava num túnel, feito de muito mais que simples pedras, feito de fantasmas, e gritos inocentes, feito de sangue que escorria e lavava –lhe os cabelos e ele pode ver todos os rostos e suas expressões enquanto sangravam e sentiam que a vida se esvaia e que uma nova vida entrava, fantoches do seu poder, da sua maldição. Era incapaz de tocar sem destruir, de amar sem destituir o amor, mas o fato era que amava. A ousadia de uma jovem virgem havia lhe ferido de morte o coração, por isso partia, não queria também destruir aquela vida, destituir o amor e todos os outros valores, em sua cabeça inúmeras perguntas, becos sem saídas, viagem sem volta. Chegaria ao porto antes que a noite se precipitasse, atravessaria oceanos com aquelas imagens na cabeça, a dor, o amor, equilibrava seus passos em cima da linha tênue e eterna que divide esses sentimentos, assim como morte e vida. Suas mãos tocavam o ar como se fossem tocar os seios da doce jovem, sufocavam um pescoço ao passo que o cheiro do sangue cobria o da maresia, um grito abafado que não pôde ser ouvido através da neblina do convés, mais um corpo ao chão seco, mais um fantasma pra habitar sua mente, mais um fantoche das suas vontades.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Um conto de duas Verdades - Episódio 9




Antes de amanhecer, ele fechou sua capa, vestindo o capuz, deixou sobre a mesa do celeiro outros dois desenhos, safras futuras? Talvez! mas precisavam ser interpretados e descobertos como tal. Colocou num saco duas garrafas de vinho e amarrou bem na sela do cavalo, fez montaria e saiu a trote. Passando pela castanheira que jazia envolvida pela manhã e por uma leve neblina, fez cair um livro, um diário. Partiu sem olha pra traz, sem deixar pistas no chão. Antes da grande curva da estrada olhou pra trás e viu mais uma vez a casa, um pouco de fumaça saindo pela chaminé, sorriu e seguiu o seu destino.
Passava um pouco do habitual quando a virgem acordou, sua sensação era que parte de si não estava ali, levantou-se rápido e antes de tudo saiu em disparada rumo ao celeiro, tomada de um sentimento juvenil vasculhou o celeiro e achou apenas os desenhos, gritou, se desesperou, se arrependeu. Era só confusão e desejo, viu que suas lagrimas borravam o desenho tratou de levar os desenhos ao irmão, ninguém havia visto que ele partira, não havia cavalo sumido, nada. Voltando pra casa resolveu por intuição ir a castanheira e caído entre as raízes viu o livro, tomando nas mãos abriu e havia um verso escrito ali pela mesma pena que houvera composto os desenhos, era dele. Leu em voz baixa, leu com o espírito, leu com desejo:

Mascaras caídas num canto, perdidas
Trazendo cheiros e sabores, essência
Lembranças de um velho baile
Onde dançaram sob antigas venezas
De janelas e pontes sem fim
De gondoleiros e vampiros, capas que se abriram
Seios e bocas se encontraram
Desejo e amor enfim se fizeram de solidez e solidão.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 8





Composta a mesa a virgem pálida não podia esconder seu desconforto, sentava-se ao lado do noivo, mas já não mais sentia aquela presença, agora ela era real, ele estava ali e ocupava um lugar ao lado de seu irmão que conversava e servia-lhe o vinho animadamente como se fossem velhos amigos, mas não poderia ser, era muito novo por ali, algo havia lhe escapado aos sentidos ou melhor a atenção naqueles últimos dias.
Antes que fosse erguido o brinde o jovem nobre tomou a palavra e erguendo um pedaço de papel contou a história que lhe acontecera naquele inicio de noite e como de forma tão fantástica aquele homem novo ali de fato havia desenhando tão perfeitamente o sentimento daquela safra. O papel deu voltas na mesa e ao chegar nas mãos da moça ele percebeu que ali havia bem mais que um desenho, que ali havia um sentimento ímpar e poderia desdobrar cada um daqueles traços em milhões de sentidos, sentiu-se confusa, mas sabia que tudo aquilo eram signos que lhe falavam de um amor imemorável porque nunca houvera existido. Retomou modos e sentido ao sentir o papel ser puxado de leve das suas mãos pelo noivo que queria também ver.
A festa continuou e os olhares continuaram se cruzando, continuaram falando coisas, revelando segredos, nascendo e morrendo em sorrisos discretos e indecentes, ele se sentia dominado por um magnetismo que o despia e pela primeira vez sentia que era totalmente dependente disso, a virgem pálida era confusão.

Um conto de duas verdades - Episódio 7





O que fez a tarde toda foi ajudar os homens a montar a enorme fogueira e depois sentou-se para contemplar o crepúsculo que se aproximava, o sol tornava laranja o horizonte encerrado pelas videiras. Tomou nas mãos um pedaço de papel e um carvão e começou a traçar desenhos, rotas entre aquilo que via e sentia e a figura tomava forma, comunhão entre o medieval e o eterno. Quando finalizava percebeu que era observado e ao olhar para trás simpatizou-se com um nobre jovem que o pediu para continuar e depois quis ver mais de perto o sutil desenho.Enquanto o rosto do jovem brilhava como se estivesse diante de um achado, o pensamento dele voava longe, entre paredes e vielas, limpos e alvos lençóis de seda com a sensação de que uma chuva de água morna cobria seu corpo já tocado por lábios de eterno e intenso prazer. Despertou quando junto com o grito dos homens acendendo a fogueira ouviu também o grito do jovem às suas costas que dizia que havia encontrado o rotulo mais perfeito para as garrafas daquela safra.