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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Carmim




É delicioso o perfume da menina
Importado da flor dentro da imaginação
É tão linda a menina,
Delicada quando anda
Sutil quando se senta, quase formal
E quando se levanta aí é a perdição

É tão presente a menina,e seu cabelo californiano
As vezes preso por um enfeite, por outras solto ao vento
É quase uma canção perdida no Caos, um pensamento
Desses com poder de criar forma simétricas
Quando vem vestida em Vermelho Flamboyant
Chega a ser erética, erótica, morte da santidade tranquila

É tão sozinha a Menina
Mas sorri de vez em quando
Fogueira queimando poetas e poemas
É miseravelmente gostosa a boca dessa menina
Variações sobre um mesmo tema
É o lado quente e doce dessas manhãs amargas e indecisas

Marcelo Moro

*créditos do Título a Talita Batista

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Um Poema sem Solução




Uma viagem entre harmonicos de guitarra
Ouvi um suspirar no lado escuro da retina,
Numa alameda de acácias
Um passo a mais e lá estava  misturada nas sombras

Lavanda sobre a pele,
Os sentidos todos a te sentir
Vestida de ventos e fogo,
Dançando com a brasa de um cigarro

Desenhando no ar as serpentes encantadas dos seus sonhos
Sonhos despojados e guardados no fundo do armário
Para que um dia pudesse brotar
Como um lírio brota sozinho no campo

Marcelo Moro

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Menina de Goya



Dá-me um sorriso musa de Goya,
Anjo dos céus de Michelangelo;
Me faz um afago, lança em minha mão uma esmola;
E sobe las ramblas rumbeando os quadris
Harmonia de pincéis que me deixa sôfrego,
Frágil, Aceso e Lúcido.
Curvas impressionantes de Oscar
Perfeitas pretuberâncias, que ficariam mais ricas,
Mais Rijas com a dança da minha língua,
Mais vivas com toques de mel e saliva,
És tinta e imaginação, letra e rima
És pele e arrepio a soletrar o poema .

Marcelo Moro

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sob o Sol de Sparta




Eu dei um gole de você pra minha alma
ela me deu a alegria de gostar de você
eu te tomei gota a gota e amei com calma
razão do meu bem querer, meu encanto ...

Meu djavanear sereno de todo dia
meu pão nosso de toda hora comido sem pressa
a agonia da falta, a alegria da vinda, a festa da volta...
a carta de um naufrago quando chega resposta

Você é algo assim como um sol num paraíso perdido
a manhã cintilante de um planeta distante, revolto, romântico
a primeira e a última, cântaro de Bálsamo, que suaviza o cântico
e os deuses pagãos ou não, ateus ou não se encantam

Eu dei um gole de você para meu quintal
e ele me devolveu o mais belo amarelo, em forma de flor
o amarelo sem limites, isso quer dizer amor, que salva
que une mundos no redondo miolo da flor...isso é amor, basta sonhar, tocar, viver...


Marcelo Moro

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Um conto de Duas verdades - Episódio 13 - Final




- Torna-me imortal! Pediu ela de sopetão a criada dentro do celeiro escuro embora brilhasse lá fora o dia. A criada, que removia o feno com um garfo, gargalhou como se esperasse há dias por aquele estranho pedido, fincou o garfo no monte de feno e contornando o corpo da virgem como numa dança doentia ria, toda suada num vestido simples, se aproximava mais e mais, a moça no centro daquele rito estava impávida, mas lívida, tremia. Estendeu o delicado braço branco e perfumado o pulso voltado pra cima, os olhos da criada se fizeram escuros como se fosse um infinito sem fim, gemeu de prazer, suas veias saltaram sua boca se encheu de saliva, tomando a mão da jovem lambeu-a, o pulso, o braço, a virgem arfou num misto de prazer e medo. Aquele momento era solidão tornada em jamais, uma torrente de perdas a espera de ganhar a vida pelo amor que sentia, sentiu a mordida profunda, doeu apenas por frações de segundos, daí em diante o coração disparava, gozava, sem força para manter-se sentia a vida esvair, ir embora para onde não sabia, caiu, morria, sua mente viajava por um campo de sândalos e alfazema pra mergulhar num bosque pantanoso e fétido com carvalhos antigos e muitos deles mortos, havia muitas pessoas perambulando por ali, mortos – vivos sedentos de sangue e seu corpo era uma garrafa vazia que ainda exalava o cheiro do vinho mais puro. Ouviu uma voz, longe, depois mais perto, chamava seu nome, seus olhos se abriram e ela sentiu pavor, paixão e amor. Ali diante dela estava ele metido numa capa preta, trazia o rosto coberto por uma máscara prata, estendendo a mão pediu a ela o punhal, confusa e sem força, mas sem hesitar entrega-lhe dando –lho virado pelo cabo. Deixando cair a mascara e o capuz ele se abaixa e se aproxima, ela é capaz de sentir o calor, a fragrância daquele corpo, com um golpe de punhal ele rasga a camisa e abre no peito um corte lento e profundo, o sangue jorra, escorre, ela sente fome, sede e desejo, tomando o corpo frágil da moça ele levanta até que sua boca possa alcançar-lhe o peito, seus ouvidos se abrem e uma voz doce toca-lhe os sentidos.- Toma, bebe e viva eternamente meu amor, minha vida e minha morte. Tudo ao redor se ilumina com luz de tochas, embora ainda impere a noite e a garoa fria, todos os sons voltam, o toque na pele, os cheiros, a visão, a virgem olha ao redor, o casario, as pessoas fantasiadas, a orgia, a maresia queima-lhe o nariz, uma jovem declama em uma língua estranha:   -Nel vino se nasconde la verità.

Marcelo Moro 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 12




Seus sonhos naquela noite foram revelações, via a cidade sobre as águas, noites iluminadas por tocheiros, as sombras que se moviam pelas vielas traziam seus rostos ocultos por máscaras, traziam suas vidas ocultas por capas e perfumes. Em todos os cantos a dança, o canto, o vinho, o carnaval era a ousadia que se esperava fazer estremecer a jovem virgem no seu leito de morte, mas ainda viva soletrava poemas imundos e ria, de que importava estar viva se tudo que importava transitava entre a vida e a morte? Via os corpos perfeitos de mulheres em vestidos descomunais, via pescoços e pulsos estraçalhados, mortas e ainda sorrindo, vivas e livres de todos os conceitos toscos que há prendiam ali entre a porta e a janela, entre a moral e os bons costumes, entre o preceito e o amor sem medida, incondicional. Ela o matara uma vez, como poderia ter ressurgido? E nas suas visões mais assassino que nunca, mais faminto do que fora por toda sua existência, como podia transitar entre os vivos? Cheirar tão bem, causar tanto prazer? Como tudo que o cercava, perguntas sem resposta.
Ali na sua cama ardendo feito brasa, se deleitava em segui-lo pelas ruas estreitas e becos, sentia agonia e prazer ao vê-lo sentir prazer enquanto distribuía orgasmos e morte, mascaras e corpos, feitos pacotes inanimados, caiam ao chão sujo e fétido da noite, a maresia, o brilho do punhal que ela trazia na mão, tudo isso compunham um teatro épico de amor e sedução, de vida e de morte, no seu sonho ela refazia o caos, queria estar ali, desejava ardentemente ser envolvida naquela trama, decorava seu papel.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 11





Da janela olhando o entardecer que caia e a noite que subia por detrás dos vinhedos a virgem amparava com as mãos mais uma lagrima, não comia, não sorria, já não saía do quarto, apenas olhava pela janela o momento em que os mundos se dividiam, e a noite chegava forte, trazia cheiros, vontades e desejos que não poderiam ser descritos, muitos menos percebidos por alguém.
Olhava também a criada que se esgueirava pelas sombras sumindo no meio da noite atrás de sangue, sentia o cheiro da morte, e sentia o cheiro de flores que chegava como que limpando o ar, cheiro do Narciso. De certa forma se sentia segura, não sabia como, mas algo surreal acalentava seu coração, e tocava-lhe os cabelos com candura, havia momentos em que um desejo selvagem lhe queimava e sentia também o toque firme e sensual do desconhecido que lhe afagava, que lhe dava o que buscava, noites insanas. Recebia a visita de Médicos e Padres, mas sua doença era amor, e não tinha remédio, a cada dia um desejo crescente de partir a invadia, queria o mundo, queria revirar cada cidade atrás do desejo saberia que seria guiada, faltava-lhe coragem, mais que isso, precisa reunir condições. Mas tida como louca talvez não conseguisse, era preciso reagir. Abriu o diário e releu o poema, gelava a cada vez que fazia isso. Tomou a caneta e escreveu um verso abaixo, olhou pra estrelas e leu com a voz tranqüila e quase sufocada por um choro involuntário.


“Não longe dali, apenas em outro plano
Um par de olhos de perolas raras formado
E que Lançava um olhar distante partindo de uma janela
de tantas janelas já se haviam falado
Que até confundiram a ilustração de um poema
E ao encontrar o horizonte tal olhar
Fazia laranja sobre o azul o céu
Tranqüilidade largada aos deuses, que tragam o amante”.