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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 1



Gostava de saber que ele estava ali, a virgem pálida, rondando-lhe a casa. Quem sabe um dia poderia vê-lo ou com mais sorte toca-lo. Seria perigoso? Pouco importava, eram os ruídos sujos e inenarráveis que ela ouvia quando no meio das noites via pelas frestas da janela a empregada fugir para o celeiro, que a conduzia com firmeza ao intento de ver e tocar aquela criatura feita de sombras. Naquela noite em particular a empregada não saíra, mas a mocinha sabia que na noite, lá fora, aquele ser espreitava entre as parreiras, quem sabe no celeiro. Duas noites antes acontecera o mesmo e ela começou a ouvir dentro da sua cabeça as respostas aos seus mais íntimos questionamentos. Era como se nada, nem paredes, nem portas detivessem a voz que lhe chegava aos ouvidos seca, firme e ao mesmo tempo suave, encantadora. A virgem que não era de todo tola imaginava ser aquilo telepatia, e também imaginava que algo sedutor se avizinhava, algo de que deveria fugir, mas longe disse e também por não ser tola aquilo tudo atraíra cada vez mais sua atenção e algo mais dentro dela. Naquela noite em certos momentos teve que conter-se para não abrir a janela pois percebera que aquele que se movia lá fora estava a poucos metros dali na escura sombra da castanheira e olhava atentamente para dentro do seu quarto, como se não houvesse entre eles janela, parede ou cortinas. Ela se sentia devorada com olhos e isso a fazia queimar, suava entre os seios e no rosto nossa donzela.Ela não entendia como e nem porque aquele ser com tantos poderes especiais não entrava em seu quarto e a tomava em seus braços possuindo-a de vez ao som daqueles poemas seicentistas que ouvia todas as noites em seus sonhos antes do dia amanhecer, eram tão nítidos que poderia escreve-los.
Então essa resposta foi a única que não obteve naquela noite e quando a aurora tomou o céu ela sentindo-se sozinha procurou a resposta entre os livros da pequena biblioteca que equipava a casa.. E lá entre uns contos ela achou uma anotação no canto amarelado de uma das paginas, demorou a decifrar as letras em estilo gótico e desbotadas pelos anos, mas leu claramente. “Um vampiro não entra em sua casa sem que seja cortesmente convidado”


Marcelo Moro


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Laços




Viagem das mãos,
O abraço, o tato, o aperto dos laços
Os nós, a solidão a sós
E os dois olhares que nunca se cruzaram
Hão de se encontar e aquecer o inverno
Da fria e úmida cidade
Um beijo, um detalhe e um abraço terno
Entres as blumas e promessas de eternidade

Mãos que nunca se tocaram e se conhecem
Vestígios de uma noite passada que nunca passou
E aqui de onde estou enxergo seus jardins
Consumo seus afins como um viciado em teu sorriso
E beijo, e agonizo com o tempo que não passa
Com as horas que não curam
E leio as cartas recebidas, enviadas quando ainda chovia
Se curvam espaço e tempo, uma equação, uma trapaça

Entre nós um paralelo
Um elo que não dá explicações
Um zelo que não tem o porque correto
Um veto, um novelo , ocasiões
O bem querer, o desejo e a fúria
a mansidão, o despejo e a Fuga
A solidez do ato insólito, o traço
Os anos que passam, o abraço, o tato e o aperto dos laços

Marcelo Moro 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Câmera Obscura





Câmera obscura
Imagens nuas
Tenho saudade do tempo em que tudo era perfeito
Que as coisas que fazia faziam efeito
E essa solidão vivida a dois não existia
Simplesmente por eu ser eu
E você o que queria

Marcelo Moro

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

As Rosas do Quintal




Eram belas as rosas do quintal
Um enigma em cada pétala ao vento
Respondiam perguntas aquelas cores,
Eram pérolas
Amores rogados ao tempo,
Visões, etecetera e tal

Eram bem cuidadas as Rosas do Quintal
Por mãos fortes e belas
Que nos deixaram num Agosto qualquer,sem explicações
E o barqueiro esqueceu as rosas no quintal
Alimentando a saudade
Expostas ao céu, ao chão , às exceções

Salvaram-se as rosas do quintal
Adornaram vasos por uma semana ou mais
Em seu lugar paredes de mau  gosto, se quer acabadas
Secaram sem que alguma bela menina as colocasse entre as folhas de um caderno
Rogo sempre por Setembro logo,como se mudasse o astral
Que se estivessem vivas as mãos e as Rosas do quintal

Marcelo Moro

domingo, 2 de setembro de 2012

Visita-se o Caos



Sente-se o Caos,
Viaja-se pelo Caos,
Respira-se o Caos,
Teme-se o Caos
Desmente-se o Caos,
Reconstrói-se o Caos,

Nada além de um Domingo 23:37

Marcelo Moro

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um pequeno conto sobre a inveja dos Deuses



Cena 1

Como entender uma avalanche de sentidos e sentimentos descendo de alturas impossiveis e caindo justamente na sua cabeça ? Não , Não se entende, apenas se vive, sente, deixa viver.
E foi nesse estágio e com o seu caos um pouco mais doce que ela entrou no Metrô naquela manhã fria, quase meio do dia, as vezes tudo assustava, crescia, metia em perigo, um auto perigo, medo anacronico. Era nessa cena de Hitchcock que ela começava a vivenciar a paixão através da falta. Aquelas mãos, palavras e fotos, as letras perdidas na escuridão, o sentimento, a sensação.
De tanto negar caia em contradição, não estava sozinha nessa visão, haviam outros olhos vivendo a mesma imaginação, em sintonia, em desapego de total prisão. O estar-se preso por vontade.
Os tachos tinham ardido tocados pelos braços de chamas da fogueira a noite toda e arderiam ainda mais, contemplando corpos nús dançando com punhais,os pés no chão. Sortilégio.

Cena 2

Ele pegou o café e o jornal e sentou-se para assistir sua melhor ressurreição.
Tudo era leve, se propunha a viver dia após dia sem uma rota, sem tortura e sem sofrer.
As mãos dão o corte num baralho e os dedos puxam um valete de paus,  o andarilho, cigano, dizia que não era o momento de parar, uma passo a frente, uma nova e mágica revelação, dentro da noite tinha visto a dança imortal dessa bela e eterea mulher, a menina do metrô. Todos os deuses invejam os mortais pela capacidade de sentir e ser sentido e saber que um dia virarão pó, medo e excitação, por isso guiam nossos destinos tendendo a nos afastar dos nossos orgamos mais imortais, da nossa entrega perfeita. Fechou o jornal, meteu o arcano no bolso e saiu apressado, precisava dizer algo, sussurrar , gritar.

Cena 3

Ela ganhou o ultimo degrau e rua, sumindo ao dobrar a esquina.
Ele ganhou o ultimo degrau e percebeu que os deuses riam do sutil desencontro.





quarta-feira, 11 de julho de 2012

Diversões




A menina, o girassol, o ensaio de mulher.
A poesia, a duvida, o bem me quer.
A estrela de muitas noites, a insônia.
A amizade serena que ardeu de paixão

O calor, o banho frio.
O rock do bom, o assovio.
A moleca, a responsa, a lagrima suspensa.
Por um fio invisível que jaz atrás do quintal

A garotinha, a ninfeta, o desejo.
A admiração, a força, o caos.
Confusão, alguém que gosto demais.
A voz rouca de muitas noites, o cais.

Marcelo Moro