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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sétimo Cotidiano





Seu olhar é uma armadilha
E o azul seco desse céu e o dourado das folhas
Nas vésperas da primavera sangram
E singram um mar numa vasilha
Com um barco de papel em chamas
Sem rumo, sem amarras nem tramas

O azul e a armadilha são seus olhos
Quando evaporam juntos com as gotas frágeis
Que deslizaram mornas pelas curvas da sua pele
Que misturam sal e açúcar
Lágrimas temporariamente viáveis
E não há salvação que se rogue, reza que se reze

O acaso acontece nos seus olhos
O azul seca neles também
E as folhas douram, e a primavera sangra
E aprisiona o mar entre chamas
E navegam em barcos de papel
E eu gosto de ditar suas tramas 

Marcelo Moro

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Pressa



Eu fiz essa canção como quem busca a terra prometida
Com sede, fome, perdas e danos
Como quem se livra do ouro e dos panos
E espera apenas a chuva cair mansamente essa noite

Fiz para o brilho dos seus olhos cor de temporal
Sem querer saber se isso importa
Se abre ou fecha suas portas
Fiz hoje e agora antes que viremos estátuas de sal

Fiz e colori os versos com giz
Escrevi antes que alguém escreva
Antes que alguém se encante, se atreva
Antes que alguma língua traduza o gosto do seu queixo

Borrei o papel para que saiba
Que é verdadeiro o que recito
Que repito como um mantra as linhas do seu rosto
Que me encanta, me encontro, me afaga

Fiz e pronto, com pressa que me afoba
Pergunta que não tem resposta
E você sóbria enquanto eu voo
Parece controlar o tempo enquanto ele foge

Marcelo Moro 

sábado, 31 de agosto de 2013

Sonho



Não sei, nunca vi teus passos
Não conheço seu balanço
O som do teu riso, mas é amplo
Não sei a textura do seu cabelo
O olhar escuro só pelo espelho
Mesmo sem respostas te caço

Acabo que me embaraço no teu silêncio
Mas insisto na harmonia dos seus traços
É um bem querer distante
Que brilha sempre antes
Que vênus na minha tarde perdida
É um exagero sempre na medida

Nunca doeu, antes se faz prazer
Nunca amanheceu comigo nas noites de insônia
Como uma das tantas sentinelas do meu sono
Mas soa uníssono como um assovio no ar
Deve ter asas ocultas de fogo
Não conheço seu cheiro, mas me faz sonhar

Marcelo Moro

* Ela é um tom de Fá maior as vezes sustenidos na minha sinfonia 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Matilha






O céu se move,
Vem a chuva depois do eclipse
A Lua troca de cor , de forma , de nome
Por esse momento cremos em tudo que existe
Movem-se as marés,
As mãos, os dedos, o arpejo
Umedeci o céu da boca, umedece o templo da flor
Diante do espelho imagina o olhar sedento
Que observa teu cio, e o descarrilhar das tuas cadeiras,
E o esfregar dos teus lábios, e o esfolar dos teus joelhos,
E o jorrar quente do seu prazer, e o uivar do seu desejo
Ecoando pelas matilhas que te cercam,
Fecham o cerco, mil olhos a espreita
E os meus bem grandes a te observar

Marcelo Moro











terça-feira, 30 de julho de 2013

Sexto Cotidiano





Ela é puro caos
Curva nosso pensamento,
Trança nossa linha com as curvas do seu corpo
Sobra em nosso olhar
Um brilho seu é um brilho a mais
Um brilho bruto, a lapidar

Ela também é luz
Espelhos planos que clamam
Garotos perdidos que amam
O seu andar, o seu doce balançar
Que recolhem cada gota que escorre
E ditam o tom do seu vestido

Ela existe sem que possa tocar
Assim como não se tocam os anjos
E habita os Jardins de Allah
Onde caminha com o sol a dourar seus cabelos
Ela personaliza as cores, a perdição
Esguia, tranquila no olho do furacão

Marcelo Moro

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Incandescências




É tão complicado o tempo
Assim como é tão singelo, e simples
É gelado o vento em certa hora da noite
Antes, muito antes do seu olhar cruzar o céu

Sua imagem rasga  o véu da minha decência
E seria inocência ignorar o que falam antigos versos
Incandescência como calar a palavra
É um desafio de sábio homem, silenciar o transverso

Tão inocente, tão presente e viva beleza
Tão uivante e proibido desejo
Tão secreto amparo, tão caro mel novo

Tanto frio perto do fogo 

Marcelo Moro

terça-feira, 23 de julho de 2013

Haikais 1 - 18






Haikai 1

Eu te espero
Meto-me em desejar
Tanto que quero

Haikai 2

Flores em você
É o que sempre vejo
Poemas e sons

Haikai 3

Sopro do Dragão
Aquele tatuado
No fim do Mundo

Haikai 4

Fios dourados
Ouro ornamentando
A pele ao sol

Haikai 5
O céu enluta
Flores choram seus perfumes
voz que se cala
Haikai 6

Não há silencio
Antes existem gritos
Dor, prazer, gozo

Haikai 7

Me é proibida
Mas tenho a ousadia
Toco com poemas

Haikai 8
Teu suor em mim
Imaginação Fugaz
A noite te traz

Haikai 9

Dos olhos aos pés
Você me conquista
Entra nos poros

Haikai 10

Quem te faz feliz?
O que te faz suspirar?
Intenção, gesto?

Haikai 11

Porque foges só ?
Juntos, seria mágico
O belo, a cor

Haikai 12

A Noite brilha
A Lua irradia prata
Sonha menina
Haikai 13

Vi tua imagem
Visão e pensamento
Falaram ao Sol

Haikai 14
Doce e quente,
Seda sobre o botão
Róseo, fervente

Haikai 15

Noite de chuva
Noite bela, escura
Paz sem estrelas

Haikai 16

Cinza vão
Umedece o Jardim
Descem os anjos

Haikai 17

É toda doce
Mesmo quando selvagem
Mel que escorre

Haikai 18

Vazios no olhar
Buracos negros e tal
Beleza dos vãos

Marcelo Moro

*são desejos, cada um dos Haikais, são resumos de sonhos e imaginações, sentimentos e sensações, sentidos que afloram da alma pra caneta, desenhos que nascem da mágica posição entre o real e o antes que adormeça...