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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 10




Antes que a manhã terminasse entrou pelas ruas de um bucólico lugar, casas desbotadas, coloridas, onde o sol transpassava os quintais e as roupas quaravam nos varais, dirigiu-se a estação, o trem não havia chegado, mas não tardava, retirou suas coisas do belo corcel e chamando um garoto deu-lhe de presente o animal. Era comum que ao partir não levasse nada, mas o que havia de diferente naquela partida é que levava consigo um coração, que não muito longe dali chorava lágrimas suspensas.
Lagrimas mágicas também molhavam seu rosto ao ouvir o apito e o ranger dos dormentes, o trem partia, olhava pela janela a estação, depois parte da vila, depois os campos, e os vinhedos, as rochas, sua alma entrava num túnel, feito de muito mais que simples pedras, feito de fantasmas, e gritos inocentes, feito de sangue que escorria e lavava –lhe os cabelos e ele pode ver todos os rostos e suas expressões enquanto sangravam e sentiam que a vida se esvaia e que uma nova vida entrava, fantoches do seu poder, da sua maldição. Era incapaz de tocar sem destruir, de amar sem destituir o amor, mas o fato era que amava. A ousadia de uma jovem virgem havia lhe ferido de morte o coração, por isso partia, não queria também destruir aquela vida, destituir o amor e todos os outros valores, em sua cabeça inúmeras perguntas, becos sem saídas, viagem sem volta. Chegaria ao porto antes que a noite se precipitasse, atravessaria oceanos com aquelas imagens na cabeça, a dor, o amor, equilibrava seus passos em cima da linha tênue e eterna que divide esses sentimentos, assim como morte e vida. Suas mãos tocavam o ar como se fossem tocar os seios da doce jovem, sufocavam um pescoço ao passo que o cheiro do sangue cobria o da maresia, um grito abafado que não pôde ser ouvido através da neblina do convés, mais um corpo ao chão seco, mais um fantasma pra habitar sua mente, mais um fantoche das suas vontades.

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