
- Torna-me imortal! Pediu ela de
sopetão a criada dentro do celeiro escuro embora brilhasse lá fora o dia. A
criada, que removia o feno com um garfo, gargalhou como se esperasse há dias
por aquele estranho pedido, fincou o garfo no monte de feno e contornando o
corpo da virgem como numa dança doentia ria, toda suada num vestido simples, se
aproximava mais e mais, a moça no centro daquele rito estava impávida, mas
lívida, tremia. Estendeu o delicado braço branco e perfumado o pulso voltado
pra cima, os olhos da criada se fizeram escuros como se fosse um infinito sem fim,
gemeu de prazer, suas veias saltaram sua boca se encheu de saliva, tomando a
mão da jovem lambeu-a, o pulso, o braço, a virgem arfou num misto de prazer e
medo. Aquele momento era solidão tornada em jamais, uma torrente de perdas a
espera de ganhar a vida pelo amor que sentia, sentiu a mordida profunda, doeu
apenas por frações de segundos, daí em diante o coração disparava, gozava, sem
força para manter-se sentia a vida esvair, ir embora para onde não sabia, caiu,
morria, sua mente viajava por um campo de sândalos e alfazema pra mergulhar num
bosque pantanoso e fétido com carvalhos antigos e muitos deles mortos, havia
muitas pessoas perambulando por ali, mortos – vivos sedentos de sangue e seu
corpo era uma garrafa vazia que ainda exalava o cheiro do vinho mais puro.
Ouviu uma voz, longe, depois mais perto, chamava seu nome, seus olhos se
abriram e ela sentiu pavor, paixão e amor. Ali diante dela estava ele metido
numa capa preta, trazia o rosto coberto por uma máscara prata, estendendo a mão
pediu a ela o punhal, confusa e sem força, mas sem hesitar entrega-lhe dando
–lho virado pelo cabo. Deixando cair a mascara e o capuz ele se abaixa e se
aproxima, ela é capaz de sentir o calor, a fragrância daquele corpo, com um
golpe de punhal ele rasga a camisa e abre no peito um corte lento e profundo, o
sangue jorra, escorre, ela sente fome, sede e desejo, tomando o corpo frágil da
moça ele levanta até que sua boca possa alcançar-lhe o peito, seus ouvidos se
abrem e uma voz doce toca-lhe os sentidos.- Toma, bebe e viva eternamente meu
amor, minha vida e minha morte. Tudo ao redor se ilumina com luz de tochas,
embora ainda impere a noite e a garoa fria, todos os sons voltam, o toque na
pele, os cheiros, a visão, a virgem olha ao redor, o casario, as pessoas
fantasiadas, a orgia, a maresia queima-lhe o nariz, uma jovem declama em uma
língua estranha: -Nel
vino se nasconde la verità.
Marcelo Moro