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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Um conto de Duas verdades - Episódio 13 - Final




- Torna-me imortal! Pediu ela de sopetão a criada dentro do celeiro escuro embora brilhasse lá fora o dia. A criada, que removia o feno com um garfo, gargalhou como se esperasse há dias por aquele estranho pedido, fincou o garfo no monte de feno e contornando o corpo da virgem como numa dança doentia ria, toda suada num vestido simples, se aproximava mais e mais, a moça no centro daquele rito estava impávida, mas lívida, tremia. Estendeu o delicado braço branco e perfumado o pulso voltado pra cima, os olhos da criada se fizeram escuros como se fosse um infinito sem fim, gemeu de prazer, suas veias saltaram sua boca se encheu de saliva, tomando a mão da jovem lambeu-a, o pulso, o braço, a virgem arfou num misto de prazer e medo. Aquele momento era solidão tornada em jamais, uma torrente de perdas a espera de ganhar a vida pelo amor que sentia, sentiu a mordida profunda, doeu apenas por frações de segundos, daí em diante o coração disparava, gozava, sem força para manter-se sentia a vida esvair, ir embora para onde não sabia, caiu, morria, sua mente viajava por um campo de sândalos e alfazema pra mergulhar num bosque pantanoso e fétido com carvalhos antigos e muitos deles mortos, havia muitas pessoas perambulando por ali, mortos – vivos sedentos de sangue e seu corpo era uma garrafa vazia que ainda exalava o cheiro do vinho mais puro. Ouviu uma voz, longe, depois mais perto, chamava seu nome, seus olhos se abriram e ela sentiu pavor, paixão e amor. Ali diante dela estava ele metido numa capa preta, trazia o rosto coberto por uma máscara prata, estendendo a mão pediu a ela o punhal, confusa e sem força, mas sem hesitar entrega-lhe dando –lho virado pelo cabo. Deixando cair a mascara e o capuz ele se abaixa e se aproxima, ela é capaz de sentir o calor, a fragrância daquele corpo, com um golpe de punhal ele rasga a camisa e abre no peito um corte lento e profundo, o sangue jorra, escorre, ela sente fome, sede e desejo, tomando o corpo frágil da moça ele levanta até que sua boca possa alcançar-lhe o peito, seus ouvidos se abrem e uma voz doce toca-lhe os sentidos.- Toma, bebe e viva eternamente meu amor, minha vida e minha morte. Tudo ao redor se ilumina com luz de tochas, embora ainda impere a noite e a garoa fria, todos os sons voltam, o toque na pele, os cheiros, a visão, a virgem olha ao redor, o casario, as pessoas fantasiadas, a orgia, a maresia queima-lhe o nariz, uma jovem declama em uma língua estranha:   -Nel vino se nasconde la verità.

Marcelo Moro 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 12




Seus sonhos naquela noite foram revelações, via a cidade sobre as águas, noites iluminadas por tocheiros, as sombras que se moviam pelas vielas traziam seus rostos ocultos por máscaras, traziam suas vidas ocultas por capas e perfumes. Em todos os cantos a dança, o canto, o vinho, o carnaval era a ousadia que se esperava fazer estremecer a jovem virgem no seu leito de morte, mas ainda viva soletrava poemas imundos e ria, de que importava estar viva se tudo que importava transitava entre a vida e a morte? Via os corpos perfeitos de mulheres em vestidos descomunais, via pescoços e pulsos estraçalhados, mortas e ainda sorrindo, vivas e livres de todos os conceitos toscos que há prendiam ali entre a porta e a janela, entre a moral e os bons costumes, entre o preceito e o amor sem medida, incondicional. Ela o matara uma vez, como poderia ter ressurgido? E nas suas visões mais assassino que nunca, mais faminto do que fora por toda sua existência, como podia transitar entre os vivos? Cheirar tão bem, causar tanto prazer? Como tudo que o cercava, perguntas sem resposta.
Ali na sua cama ardendo feito brasa, se deleitava em segui-lo pelas ruas estreitas e becos, sentia agonia e prazer ao vê-lo sentir prazer enquanto distribuía orgasmos e morte, mascaras e corpos, feitos pacotes inanimados, caiam ao chão sujo e fétido da noite, a maresia, o brilho do punhal que ela trazia na mão, tudo isso compunham um teatro épico de amor e sedução, de vida e de morte, no seu sonho ela refazia o caos, queria estar ali, desejava ardentemente ser envolvida naquela trama, decorava seu papel.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 11





Da janela olhando o entardecer que caia e a noite que subia por detrás dos vinhedos a virgem amparava com as mãos mais uma lagrima, não comia, não sorria, já não saía do quarto, apenas olhava pela janela o momento em que os mundos se dividiam, e a noite chegava forte, trazia cheiros, vontades e desejos que não poderiam ser descritos, muitos menos percebidos por alguém.
Olhava também a criada que se esgueirava pelas sombras sumindo no meio da noite atrás de sangue, sentia o cheiro da morte, e sentia o cheiro de flores que chegava como que limpando o ar, cheiro do Narciso. De certa forma se sentia segura, não sabia como, mas algo surreal acalentava seu coração, e tocava-lhe os cabelos com candura, havia momentos em que um desejo selvagem lhe queimava e sentia também o toque firme e sensual do desconhecido que lhe afagava, que lhe dava o que buscava, noites insanas. Recebia a visita de Médicos e Padres, mas sua doença era amor, e não tinha remédio, a cada dia um desejo crescente de partir a invadia, queria o mundo, queria revirar cada cidade atrás do desejo saberia que seria guiada, faltava-lhe coragem, mais que isso, precisa reunir condições. Mas tida como louca talvez não conseguisse, era preciso reagir. Abriu o diário e releu o poema, gelava a cada vez que fazia isso. Tomou a caneta e escreveu um verso abaixo, olhou pra estrelas e leu com a voz tranqüila e quase sufocada por um choro involuntário.


“Não longe dali, apenas em outro plano
Um par de olhos de perolas raras formado
E que Lançava um olhar distante partindo de uma janela
de tantas janelas já se haviam falado
Que até confundiram a ilustração de um poema
E ao encontrar o horizonte tal olhar
Fazia laranja sobre o azul o céu
Tranqüilidade largada aos deuses, que tragam o amante”.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 10




Antes que a manhã terminasse entrou pelas ruas de um bucólico lugar, casas desbotadas, coloridas, onde o sol transpassava os quintais e as roupas quaravam nos varais, dirigiu-se a estação, o trem não havia chegado, mas não tardava, retirou suas coisas do belo corcel e chamando um garoto deu-lhe de presente o animal. Era comum que ao partir não levasse nada, mas o que havia de diferente naquela partida é que levava consigo um coração, que não muito longe dali chorava lágrimas suspensas.
Lagrimas mágicas também molhavam seu rosto ao ouvir o apito e o ranger dos dormentes, o trem partia, olhava pela janela a estação, depois parte da vila, depois os campos, e os vinhedos, as rochas, sua alma entrava num túnel, feito de muito mais que simples pedras, feito de fantasmas, e gritos inocentes, feito de sangue que escorria e lavava –lhe os cabelos e ele pode ver todos os rostos e suas expressões enquanto sangravam e sentiam que a vida se esvaia e que uma nova vida entrava, fantoches do seu poder, da sua maldição. Era incapaz de tocar sem destruir, de amar sem destituir o amor, mas o fato era que amava. A ousadia de uma jovem virgem havia lhe ferido de morte o coração, por isso partia, não queria também destruir aquela vida, destituir o amor e todos os outros valores, em sua cabeça inúmeras perguntas, becos sem saídas, viagem sem volta. Chegaria ao porto antes que a noite se precipitasse, atravessaria oceanos com aquelas imagens na cabeça, a dor, o amor, equilibrava seus passos em cima da linha tênue e eterna que divide esses sentimentos, assim como morte e vida. Suas mãos tocavam o ar como se fossem tocar os seios da doce jovem, sufocavam um pescoço ao passo que o cheiro do sangue cobria o da maresia, um grito abafado que não pôde ser ouvido através da neblina do convés, mais um corpo ao chão seco, mais um fantasma pra habitar sua mente, mais um fantoche das suas vontades.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Um conto de duas Verdades - Episódio 9




Antes de amanhecer, ele fechou sua capa, vestindo o capuz, deixou sobre a mesa do celeiro outros dois desenhos, safras futuras? Talvez! mas precisavam ser interpretados e descobertos como tal. Colocou num saco duas garrafas de vinho e amarrou bem na sela do cavalo, fez montaria e saiu a trote. Passando pela castanheira que jazia envolvida pela manhã e por uma leve neblina, fez cair um livro, um diário. Partiu sem olha pra traz, sem deixar pistas no chão. Antes da grande curva da estrada olhou pra trás e viu mais uma vez a casa, um pouco de fumaça saindo pela chaminé, sorriu e seguiu o seu destino.
Passava um pouco do habitual quando a virgem acordou, sua sensação era que parte de si não estava ali, levantou-se rápido e antes de tudo saiu em disparada rumo ao celeiro, tomada de um sentimento juvenil vasculhou o celeiro e achou apenas os desenhos, gritou, se desesperou, se arrependeu. Era só confusão e desejo, viu que suas lagrimas borravam o desenho tratou de levar os desenhos ao irmão, ninguém havia visto que ele partira, não havia cavalo sumido, nada. Voltando pra casa resolveu por intuição ir a castanheira e caído entre as raízes viu o livro, tomando nas mãos abriu e havia um verso escrito ali pela mesma pena que houvera composto os desenhos, era dele. Leu em voz baixa, leu com o espírito, leu com desejo:

Mascaras caídas num canto, perdidas
Trazendo cheiros e sabores, essência
Lembranças de um velho baile
Onde dançaram sob antigas venezas
De janelas e pontes sem fim
De gondoleiros e vampiros, capas que se abriram
Seios e bocas se encontraram
Desejo e amor enfim se fizeram de solidez e solidão.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Um conto de duas verdades - Episódio 8





Composta a mesa a virgem pálida não podia esconder seu desconforto, sentava-se ao lado do noivo, mas já não mais sentia aquela presença, agora ela era real, ele estava ali e ocupava um lugar ao lado de seu irmão que conversava e servia-lhe o vinho animadamente como se fossem velhos amigos, mas não poderia ser, era muito novo por ali, algo havia lhe escapado aos sentidos ou melhor a atenção naqueles últimos dias.
Antes que fosse erguido o brinde o jovem nobre tomou a palavra e erguendo um pedaço de papel contou a história que lhe acontecera naquele inicio de noite e como de forma tão fantástica aquele homem novo ali de fato havia desenhando tão perfeitamente o sentimento daquela safra. O papel deu voltas na mesa e ao chegar nas mãos da moça ele percebeu que ali havia bem mais que um desenho, que ali havia um sentimento ímpar e poderia desdobrar cada um daqueles traços em milhões de sentidos, sentiu-se confusa, mas sabia que tudo aquilo eram signos que lhe falavam de um amor imemorável porque nunca houvera existido. Retomou modos e sentido ao sentir o papel ser puxado de leve das suas mãos pelo noivo que queria também ver.
A festa continuou e os olhares continuaram se cruzando, continuaram falando coisas, revelando segredos, nascendo e morrendo em sorrisos discretos e indecentes, ele se sentia dominado por um magnetismo que o despia e pela primeira vez sentia que era totalmente dependente disso, a virgem pálida era confusão.

Um conto de duas verdades - Episódio 7





O que fez a tarde toda foi ajudar os homens a montar a enorme fogueira e depois sentou-se para contemplar o crepúsculo que se aproximava, o sol tornava laranja o horizonte encerrado pelas videiras. Tomou nas mãos um pedaço de papel e um carvão e começou a traçar desenhos, rotas entre aquilo que via e sentia e a figura tomava forma, comunhão entre o medieval e o eterno. Quando finalizava percebeu que era observado e ao olhar para trás simpatizou-se com um nobre jovem que o pediu para continuar e depois quis ver mais de perto o sutil desenho.Enquanto o rosto do jovem brilhava como se estivesse diante de um achado, o pensamento dele voava longe, entre paredes e vielas, limpos e alvos lençóis de seda com a sensação de que uma chuva de água morna cobria seu corpo já tocado por lábios de eterno e intenso prazer. Despertou quando junto com o grito dos homens acendendo a fogueira ouviu também o grito do jovem às suas costas que dizia que havia encontrado o rotulo mais perfeito para as garrafas daquela safra.