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terça-feira, 10 de junho de 2014

Papo de Aranha



Palavras ao vento
Perda de tempo
Dá sono seu tédio
Ou se dorme de analgésico
Palavras frias
Nem põe nem tira
Compartilha a dor
Esconde o orgasmo
Estraçalha o espartilho
Trava o dedo no gatilho
E nasce de novo
Renascendo das cinzas
Lágrimas que não curam
Dedo na ferida
Venenos que apuram
Em fogo brando
Banzo de branco
Flores artificiais
Em tecidos chineses
Surto, Gênese
Beijo, êxtase
Presa, fome e incandescência
Saída pela teia de emergência 

Marcelo Moro 


Cinza







Cinza o dia
A manhã, o bom dia
O café e a blusa da menina
Provas viram cinza
Em fundos de cinzeiros
O Prazer e o vício
O Alcatrão, Nicotina
E o silício dessa falsa memória
Cinza nossa modernidade
Nossa mediocridade
A simplicidade da manhã sem sol
Cinza seus passos
A prisão em seu sorriso
Cinza que se abate sobre a cor dos sonhos
Cor dos olhos, tristes, enfadonhos
Cinzas ponteiros de relógios
Que atrasam as horas
Que atravessam o tempo
Cinza a manhã e o vento que a acaricia
Cinzas serpentes nos Jardins de Allah!

Marcelo Moro

domingo, 8 de junho de 2014

Novo Mundo



Quando essas ondas,
esses cachos de tempestade e fúria
Varreram minha pele, como varrem deserta praia
Levaram primeiro a sujeira, depois o pudor
Daí o arrepio, o suspiro e o riso, o calor
E em ondas e mais ondas de total redemoinho
Calaram –me num grito

E quem pensava azul
Tremeu ao ver o céu castanho, quase mel
E os maremotos romperam minha proa
Minha envergadura, e línguas á toa
A torto e a direito lamberam o céu
E a sua, Deusa do vento
Fez acordar um vulcão nos meus mamilos

Então de braços abertos na praça da vila arrasada
Senti a chuva lavando meus pecados
Caindo sobre a pedra nua, trazendo à tona a alma amada,
Um dedo no caos como quem tempera um dom selvagem,
Seu fogo sobre a areia despertando a colorida miragem
Doido de saudade de ontem
Querendo ver de novo seus maremotos no horizonte


Marcelo Moro 

domingo, 25 de maio de 2014

Colagem



Lambe 
Sambe 
Meu corpo Promete
Espera
Aguenta
Venha
Experimenta
Joga
Brinca
Tenta
Seduza
Abusa-me
Lambuza
Orienta-me
Faz-me
Louca
Pouca
Doida
Muita
Traduza-me
Cola Tua pele na minha
Tua carne
Teu sexo
No meu sexo
Transgrida
Infrinja
Leis
Conceitos
Regras
Baste-se
Junte-me
Embole-se
No jogo de pernas
Quadris
Braços
Bocas e línguas
Deixe correr
Deixe rolar
Vamos Agora e sempre
Amar e gozar...


Marcelo Moro 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Fogo 242





Azul e Laranja raios de céu e de sol
Sobre o mármore branco da Vênus sem braços
Luzes sem filtro, sem qualquer equilíbrio 
Apenas cruzam a vidraça, tortos sem lastros

Como um signo sem ascendentes 
Que devora seus filhos, suas luas 
Uma porta sem batentes 
Que fecha o destino sem chaves, flutua

Leoa de fogo que o tempo aprimora 
Ascende em leão conjugando o momento 
Subjugando o bicho, o macho , devora 
Soprando seu perfume doce aos sete ventos 

E assim se constrói um desejo pleno 
Sem hífen, sem rima , castanho moreno 
Um licor raro, sutil doce – amargo 
Pequenas doses diárias do mais belo veneno

Marcelo Moro

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Poesia Estrábica



Nos seus olhos, os sonhos parecem parar
Nos seus olhos as luzes morrem
Duas estrelas, desalinhadas
Deselegância divina, brilho ímpar
Equação de números primos
Tramas transversas do linho

As cores pouco importam
Diante do intenso desastre
Lente? Que mente e não sente
Dúvida reticente quando engana o retrato
Sagaz, de fino trato
Quando o doce esgana o amargo

Construção obliqua
Pretérito mais que perfeito
Desalinho, defeito
Malmequer na febril margarida
Sorriso de menina bonita

Com um olho no córner e o outro me fita

Marcelo Moro 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Equilibrista







Noite cinza
Úmido sorriso
Pensamento preso pelo vidro
Janela sem cortina
Tingindo de dourado os pingos
Incandescência da lâmpada, da menina

Ousadia sem estrelas
O Chumbo brilhante do tecido
Hábil equilibrista sem alças
Asas da imaginação, mãos
Esculpindo os humores
Revelando rijos sabores

É apenas chuva, mansa
Que cai, ali atrás dos sentidos
Que molha sutil os cabelos
Que desce, escorre, contorna os botões
De plástico vulgar, frígidos
De rosas de fogo, chamas, sensações

Marcelo Moro