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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Pele para que te quero




Ah! Essa pele tem me seduzido
Cor, tempero, sabor
Pinta por pinta, sarda por sarda
E que quando arda de sol, de calor, tenha minha saliva
Para aliviar a dor, como um bálsamo, cura viva
E se uma flor aconteça de cair
Orna os cabelos e me olha travessa
Me fazendo rir
E quando eu decidir eu atravesso o mapa
Eu reviro o mar da sua tranquila idade
Esvazio a cidade disparando desgraças falsas
Deixando a praça vazia para mim e sua pele
E que uma flor caia para que você se vista de primavera
E se dispa de tudo o demais
E que tudo aconteça em seu tempo, no meu, tanto faz


Marcelo Moro

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Catrina







E desapareceu de repente
O sabor do beijo, o desejo ardente
Perdeu-se em um momento
O calor dos corpos
Sem que ninguém compreendesse
Talvez, alguém soubesse demais
O que a outra alma devesse
Foram reticências e trevas frias
Aqueles dias em que o vento despiu as cerejeiras
Não houve tempo para uma oração
Sem singeleza, sem copos na mesa
Sem dedos apontando alguma direção
Foi apatia, vazia de qualquer signo
Se desfizeram os laços, e os braços se desencontraram
A dor ficou e o destino seguiu seus passos
E a cada encontro com cada primavera
Resta uma quimera e uma flor sem dono
Um abandono e o sono que não vem
E de tentar em tentar o sonho vira desgaste
E que se lasque a dor que não dói em mim
E o que é a felicidade enfim?
Se não um troço chato que todos fingem sentir
E por ela mentem, ignoram, choram
E vão embora em algum momento sem fechar a porta
Apenas para não deixar de ver quem espera no portão
E de quando em vez deixa uma mensagem
Para ter certeza que ainda existe o que não passou de ilusão


Marcelo Moro

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Tempestade






Um dia alguém disse que ele tinha belos olhos.
Era um dia desses em que São Paulo some debaixo da tempestade, disseram que seus olhos tinham a cor da tempestade.
Sempre pareceram tristes e tempestades são belas, impõe sua força, diminuem a raiva e a empáfia da metrópole, subjugando- a ao caos.
Nesse dia comeram juntos o pão que o diabo amassou e beberam seu vinho em quintas antes submersas nos becos escuros.
Ele até franziu os belos olhos ensaiando sorrisos e ela, bom, ela nunca lhe mostrara a sincera visão do seu pensamento. Com o tempo ele a conheceu melhor que todo mundo, mas os destinos foram selados naquele dia, de olhos e cores de tempestade, de pães e de vinhos.
Num futuro distante aqueles olhos derramaram água e tinham sim cor de tempestade e o sorriso enrijeceu e secou em anos sem sol, uma pena se mostrar insensata, insensível diante daquele gigante horizonte castanho, tomado de fúria inocente.
E o vinho perdeu seu sabor...

Marcelo Moro 










terça-feira, 5 de agosto de 2014

Décimo Segundo Cotidiano







O que pensa ser tolice
Por vezes é calma
E o que acha que é intelecto
Sempre, quase sempre é alma

Eu sou assim fogo sob o chão
Multidão distraída
Distúrbio de personificação
Porta de saída

Bebi seus risos e me embriaguei
Bati portas e briguei
Do lado de lá gargalhei no espelho
Imitando sua ira, sua frescura

Nem preciso de vinho para as verdades
Um café forte e um rock do bom bastam
E falamos de neblina e cidades
De água e mentiras que vazam assinadas com o polegar

Imaginei tinta correndo por seu corpo
Suaves desenhos concebidos durante a tarde que chovia
Teias sem aranha, papos estranhos sem rostos
Estrada estreita de uma só via

Marcelo Moro

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A minha Versão dos Fatos







Não sei porque cargas d’água
Ignora com seus olhos minha mão
Estendida no olho do furacão
Para te tirar da tormenta

Aqui, como diz o poeta
Ninguém te atingiria
“Nem com mãos vazias e nem pedras”
E um beijo calaria teu grito, tua ira

Mas calou tua voz para mim
Fechou suas mãos, desagravo
Leu o livro pelo fim
Deixou minha vez descer pelo ralo, como a tinta dos cabelos

Ignorou a promessa de girar mais lento
Mesmo em meio ao vento mais forte, tempestade
Se fechou na concha profanando a obra de arte
E permitiu bolor, limo, e restos de existência ocultar as estrelas

Antes que eu bata à porta e te incomode de novo
É preciso chover no deserto
É necessário encurtar o tempo dos dias
E nas noites deixar no tapete a chave que abra o cadeado certo

Marcelo Moro

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Satélite de Nós





Enquanto você me ignora
Ela exibe suas fases, seus vestidos
Prata, pedra, pó
Levita no céu escuro cheia de sorrisos


Arcano das estradas, das fogueiras
Luz para a dança santa de Sarah
Que cura, alinhava o destino
Lente que não mente a leitura das cartas

De passagem puxa com as mãos o mar
E o lança sobre as avenidas
Lança búzios, caos e beijos
Enfeita de prata os cabelos das meninas

Luz que faz parir viajantes
Guiar marinheiros e guias
Entra pela janela e toca as Camilas
Tira a dor dos joelhos, cria instantes

Invade os becos secretos
Revelando mãos, corpos e segredos
Deita-se cedo quando arde o dia
Trama com certeza em sonho seu próximo enredo


Marcelo Moro

*Lua do inicio dessa madrugada do dia 17 de julho

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Décimo Primeiro Cotidiano









Seu nome é um composto de maré com poesia
Sobe com a lua e num passe de mágica, esvazia
Seu nome rima com fala
E rima com cala
Com nada e, com licença poética, com tudo
A cor dos seus olhos inexata, imprecisa, cor de mundo

Jardins suspensos por gigantes de mármore
Seria um belo pingente, banhado a brisa
Enroscado entre os cabelos que o suor frisa
Oxidado por seu ácido apático e choro árido
Pago com um beijo mal pago, imaginado
Rente ao chão sufoco e calo o meu platonismo

Seu nome lima meus versos
Deixa cortante minhas rimas
Afia os meus dentes onde escorre mel
E na Lua Nova, escura, cálida
Destila abandono, seca o céu
E rompante segue ganhando  mil ruas

E quando finda a noite, o ciclo, baixa a maré
A praça me espera para um novo auto da fé
Onde não se ouvem gritos, nem trepidar de dentes
Apenas sussurros quentes de quem nega ser poema
E que espera apenas que alguém diga seu nome
Enquanto nega o amor, a paixão o encontro, o poeta morre de fome

Marcelo Moro