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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Décimo Primeiro Cotidiano









Seu nome é um composto de maré com poesia
Sobe com a lua e num passe de mágica, esvazia
Seu nome rima com fala
E rima com cala
Com nada e, com licença poética, com tudo
A cor dos seus olhos inexata, imprecisa, cor de mundo

Jardins suspensos por gigantes de mármore
Seria um belo pingente, banhado a brisa
Enroscado entre os cabelos que o suor frisa
Oxidado por seu ácido apático e choro árido
Pago com um beijo mal pago, imaginado
Rente ao chão sufoco e calo o meu platonismo

Seu nome lima meus versos
Deixa cortante minhas rimas
Afia os meus dentes onde escorre mel
E na Lua Nova, escura, cálida
Destila abandono, seca o céu
E rompante segue ganhando  mil ruas

E quando finda a noite, o ciclo, baixa a maré
A praça me espera para um novo auto da fé
Onde não se ouvem gritos, nem trepidar de dentes
Apenas sussurros quentes de quem nega ser poema
E que espera apenas que alguém diga seu nome
Enquanto nega o amor, a paixão o encontro, o poeta morre de fome

Marcelo Moro 




terça-feira, 24 de junho de 2014

Décimo Cotidiano











O dia declina em espelhos turvos
Baixa o frio, o vento , o barulho
Aquele caos transfigura-se em sorrisos
Brandos, fartos, mansos, frívolos , falsos

Entre todos, diamantes e vidros
E entre esses seus passos pequenos
Verdadeiros, nem sempre serenos
Mas ao menos seus e de mais ninguém

Mil moedas por seus pensamentos
Os bons , maus , os presságios e os naufrágios
Tudo dessa  alma me interessa
Tudo que apressa o sangue pelos meus caminhos

O dia declina digital, Elemental, mágico
Cores se misturam, copos , corpos
Perdem-se rumos, bussolas , casas
Feliz de quem se guia pelas estrelas,  e tem asas

Entre todos esses passos, os seus passos
Fogo sobre a terra, pretensão no olhar
Mãos traçam desenhos na pele e  flores no tecido
E seu sorriso gravado, vestida de céu, de mar 

Marcelo Moro 

terça-feira, 10 de junho de 2014

Papo de Aranha



Palavras ao vento
Perda de tempo
Dá sono seu tédio
Ou se dorme de analgésico
Palavras frias
Nem põe nem tira
Compartilha a dor
Esconde o orgasmo
Estraçalha o espartilho
Trava o dedo no gatilho
E nasce de novo
Renascendo das cinzas
Lágrimas que não curam
Dedo na ferida
Venenos que apuram
Em fogo brando
Banzo de branco
Flores artificiais
Em tecidos chineses
Surto, Gênese
Beijo, êxtase
Presa, fome e incandescência
Saída pela teia de emergência 

Marcelo Moro 


Cinza







Cinza o dia
A manhã, o bom dia
O café e a blusa da menina
Provas viram cinza
Em fundos de cinzeiros
O Prazer e o vício
O Alcatrão, Nicotina
E o silício dessa falsa memória
Cinza nossa modernidade
Nossa mediocridade
A simplicidade da manhã sem sol
Cinza seus passos
A prisão em seu sorriso
Cinza que se abate sobre a cor dos sonhos
Cor dos olhos, tristes, enfadonhos
Cinzas ponteiros de relógios
Que atrasam as horas
Que atravessam o tempo
Cinza a manhã e o vento que a acaricia
Cinzas serpentes nos Jardins de Allah!

Marcelo Moro

domingo, 8 de junho de 2014

Novo Mundo



Quando essas ondas,
esses cachos de tempestade e fúria
Varreram minha pele, como varrem deserta praia
Levaram primeiro a sujeira, depois o pudor
Daí o arrepio, o suspiro e o riso, o calor
E em ondas e mais ondas de total redemoinho
Calaram –me num grito

E quem pensava azul
Tremeu ao ver o céu castanho, quase mel
E os maremotos romperam minha proa
Minha envergadura, e línguas á toa
A torto e a direito lamberam o céu
E a sua, Deusa do vento
Fez acordar um vulcão nos meus mamilos

Então de braços abertos na praça da vila arrasada
Senti a chuva lavando meus pecados
Caindo sobre a pedra nua, trazendo à tona a alma amada,
Um dedo no caos como quem tempera um dom selvagem,
Seu fogo sobre a areia despertando a colorida miragem
Doido de saudade de ontem
Querendo ver de novo seus maremotos no horizonte


Marcelo Moro 

domingo, 25 de maio de 2014

Colagem



Lambe 
Sambe 
Meu corpo Promete
Espera
Aguenta
Venha
Experimenta
Joga
Brinca
Tenta
Seduza
Abusa-me
Lambuza
Orienta-me
Faz-me
Louca
Pouca
Doida
Muita
Traduza-me
Cola Tua pele na minha
Tua carne
Teu sexo
No meu sexo
Transgrida
Infrinja
Leis
Conceitos
Regras
Baste-se
Junte-me
Embole-se
No jogo de pernas
Quadris
Braços
Bocas e línguas
Deixe correr
Deixe rolar
Vamos Agora e sempre
Amar e gozar...


Marcelo Moro 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Fogo 242





Azul e Laranja raios de céu e de sol
Sobre o mármore branco da Vênus sem braços
Luzes sem filtro, sem qualquer equilíbrio 
Apenas cruzam a vidraça, tortos sem lastros

Como um signo sem ascendentes 
Que devora seus filhos, suas luas 
Uma porta sem batentes 
Que fecha o destino sem chaves, flutua

Leoa de fogo que o tempo aprimora 
Ascende em leão conjugando o momento 
Subjugando o bicho, o macho , devora 
Soprando seu perfume doce aos sete ventos 

E assim se constrói um desejo pleno 
Sem hífen, sem rima , castanho moreno 
Um licor raro, sutil doce – amargo 
Pequenas doses diárias do mais belo veneno

Marcelo Moro