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quarta-feira, 23 de julho de 2014

A minha Versão dos Fatos







Não sei porque cargas d’água
Ignora com seus olhos minha mão
Estendida no olho do furacão
Para te tirar da tormenta

Aqui, como diz o poeta
Ninguém te atingiria
“Nem com mãos vazias e nem pedras”
E um beijo calaria teu grito, tua ira

Mas calou tua voz para mim
Fechou suas mãos, desagravo
Leu o livro pelo fim
Deixou minha vez descer pelo ralo, como a tinta dos cabelos

Ignorou a promessa de girar mais lento
Mesmo em meio ao vento mais forte, tempestade
Se fechou na concha profanando a obra de arte
E permitiu bolor, limo, e restos de existência ocultar as estrelas

Antes que eu bata à porta e te incomode de novo
É preciso chover no deserto
É necessário encurtar o tempo dos dias
E nas noites deixar no tapete a chave que abra o cadeado certo

Marcelo Moro

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Satélite de Nós





Enquanto você me ignora
Ela exibe suas fases, seus vestidos
Prata, pedra, pó
Levita no céu escuro cheia de sorrisos


Arcano das estradas, das fogueiras
Luz para a dança santa de Sarah
Que cura, alinhava o destino
Lente que não mente a leitura das cartas

De passagem puxa com as mãos o mar
E o lança sobre as avenidas
Lança búzios, caos e beijos
Enfeita de prata os cabelos das meninas

Luz que faz parir viajantes
Guiar marinheiros e guias
Entra pela janela e toca as Camilas
Tira a dor dos joelhos, cria instantes

Invade os becos secretos
Revelando mãos, corpos e segredos
Deita-se cedo quando arde o dia
Trama com certeza em sonho seu próximo enredo


Marcelo Moro

*Lua do inicio dessa madrugada do dia 17 de julho

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Décimo Primeiro Cotidiano









Seu nome é um composto de maré com poesia
Sobe com a lua e num passe de mágica, esvazia
Seu nome rima com fala
E rima com cala
Com nada e, com licença poética, com tudo
A cor dos seus olhos inexata, imprecisa, cor de mundo

Jardins suspensos por gigantes de mármore
Seria um belo pingente, banhado a brisa
Enroscado entre os cabelos que o suor frisa
Oxidado por seu ácido apático e choro árido
Pago com um beijo mal pago, imaginado
Rente ao chão sufoco e calo o meu platonismo

Seu nome lima meus versos
Deixa cortante minhas rimas
Afia os meus dentes onde escorre mel
E na Lua Nova, escura, cálida
Destila abandono, seca o céu
E rompante segue ganhando  mil ruas

E quando finda a noite, o ciclo, baixa a maré
A praça me espera para um novo auto da fé
Onde não se ouvem gritos, nem trepidar de dentes
Apenas sussurros quentes de quem nega ser poema
E que espera apenas que alguém diga seu nome
Enquanto nega o amor, a paixão o encontro, o poeta morre de fome

Marcelo Moro 




terça-feira, 24 de junho de 2014

Décimo Cotidiano











O dia declina em espelhos turvos
Baixa o frio, o vento , o barulho
Aquele caos transfigura-se em sorrisos
Brandos, fartos, mansos, frívolos , falsos

Entre todos, diamantes e vidros
E entre esses seus passos pequenos
Verdadeiros, nem sempre serenos
Mas ao menos seus e de mais ninguém

Mil moedas por seus pensamentos
Os bons , maus , os presságios e os naufrágios
Tudo dessa  alma me interessa
Tudo que apressa o sangue pelos meus caminhos

O dia declina digital, Elemental, mágico
Cores se misturam, copos , corpos
Perdem-se rumos, bussolas , casas
Feliz de quem se guia pelas estrelas,  e tem asas

Entre todos esses passos, os seus passos
Fogo sobre a terra, pretensão no olhar
Mãos traçam desenhos na pele e  flores no tecido
E seu sorriso gravado, vestida de céu, de mar 

Marcelo Moro 

terça-feira, 10 de junho de 2014

Papo de Aranha



Palavras ao vento
Perda de tempo
Dá sono seu tédio
Ou se dorme de analgésico
Palavras frias
Nem põe nem tira
Compartilha a dor
Esconde o orgasmo
Estraçalha o espartilho
Trava o dedo no gatilho
E nasce de novo
Renascendo das cinzas
Lágrimas que não curam
Dedo na ferida
Venenos que apuram
Em fogo brando
Banzo de branco
Flores artificiais
Em tecidos chineses
Surto, Gênese
Beijo, êxtase
Presa, fome e incandescência
Saída pela teia de emergência 

Marcelo Moro 


Cinza







Cinza o dia
A manhã, o bom dia
O café e a blusa da menina
Provas viram cinza
Em fundos de cinzeiros
O Prazer e o vício
O Alcatrão, Nicotina
E o silício dessa falsa memória
Cinza nossa modernidade
Nossa mediocridade
A simplicidade da manhã sem sol
Cinza seus passos
A prisão em seu sorriso
Cinza que se abate sobre a cor dos sonhos
Cor dos olhos, tristes, enfadonhos
Cinzas ponteiros de relógios
Que atrasam as horas
Que atravessam o tempo
Cinza a manhã e o vento que a acaricia
Cinzas serpentes nos Jardins de Allah!

Marcelo Moro

domingo, 8 de junho de 2014

Novo Mundo



Quando essas ondas,
esses cachos de tempestade e fúria
Varreram minha pele, como varrem deserta praia
Levaram primeiro a sujeira, depois o pudor
Daí o arrepio, o suspiro e o riso, o calor
E em ondas e mais ondas de total redemoinho
Calaram –me num grito

E quem pensava azul
Tremeu ao ver o céu castanho, quase mel
E os maremotos romperam minha proa
Minha envergadura, e línguas á toa
A torto e a direito lamberam o céu
E a sua, Deusa do vento
Fez acordar um vulcão nos meus mamilos

Então de braços abertos na praça da vila arrasada
Senti a chuva lavando meus pecados
Caindo sobre a pedra nua, trazendo à tona a alma amada,
Um dedo no caos como quem tempera um dom selvagem,
Seu fogo sobre a areia despertando a colorida miragem
Doido de saudade de ontem
Querendo ver de novo seus maremotos no horizonte


Marcelo Moro